domingo, 16 de abril de 2017

Já era madrugada
Um salmo de sangue [em mim] crescia
Teu corpinho se prepara para o luto
Gostaria de abraçar revolta
Interditar todos os caixões do mundo
 e proibir tua entrada
Mas não posso
[Não posso...]
Vejo dúzias de deuses e parentes desencarnados
Aguardando o regresso de Mara
Infantil, decreto ira
Queria te exilar em minha ilha de amor
Gritar na sala
Xingar Jesus, Maria e o Diabo
Rasgar o diploma de todos os  médicos da cidade
Fabricar uma roda
Fazer alquimia ou criar em cativeiro
Germes graúdos que te curem a falta de imunidade ou o câncer

Olhei pra nuvem e eu estava oca
Nenhuma figura de bicho ou de linguagem se formou
[O caso é]
Não sei se Deus é injusto
Ou se eu sou mesmo egoísta
Danem-se credos
se eu pudesse escreveria a tua cura
A tua cura!
Engordaria teu fino rosto
Te daria outra vez cabelos cheios
Nunca mais veria teu corpo materno definhar
Feito Abayomi
Em navio negreiro
Não te desejo mártir resignada
Apenas viva (Mulher, viva!)
De Agosto a Abril e eu te peço:
Não me gere por nove meses num ventre pálido
Pra habitar na vaidade balofa
De minhas futuras memórias
Eu tacaria fogo em todos os poetas
Escreveria nos muros de Campo Grande:
“Briga comigo!”


[O acaso é]
Minha poesia sufoca com tua apatia
Juro, se dependesse de meus versos
Despejaria na pia toda morfina
Dos teus estomas
Nasceriam duas orquídeas  
Tratamentos quimioterápicos incinerados
Teus gritos transmutados em riso
Uma cauda de luz na tua inanição
Não te veria mais andar em costas curvadas
Te daria amoras fresquinhas
E nunca mais deitaria de luz acesa

Não posso te colocar pra dormir
(Ainda não)
Tenho tantos gestos
O mesmo amor antigo
Implorando o novo
Tuas lidas no morrer do dia
Não posso gerar cria sem você nem o pai aqui
Entenda mulher
Nem mesmo eu cresci
E esse eco do número 280
Dobra a esquina
E eu quero mesmo é que a morte se engasgue
Trepe nas pernas de um outro cão qualquer

Em castigos nutridos de trigo
 (nunca me doeu tanto)
Fazer verso de bebida em punho
Sem coragem de dormir por uma fração a mais de angústia e dúvida
Um dia, você me estancou sangue de joelhos ralados
[Prometeram pros filhos: ]
Mães podem tudo
Faça o favor de se curar

Por agora,
Tua mãe sou eu
Te gero amuada feito flor violentada
Sei acalmar esse pranto que começa
[Tu] é minha nuvem
então veja se não desmancha no ar 
sem formar tantos desenhos que sonhei um dia
-Mãe?...Sabe o final do poema?
Gosto de imaginar que essa doença é uma gripe passageira.
Do que virá
Peço uma pausa
Não posso te colocar pra dormir
(Ainda não)