sexta-feira, 24 de julho de 2009

Antigo Caos


Minha pequena escolhe-me
O ritmo de suas pernas é dissonante
Os passos em devaneio, confusos e cintilantes
Arrasto os ritmos por toda a cidade
Não decoro meus pedidos
Minha pequena é meu vício profano
Meu palco sedento
Revivemos em ato, antigo caos
Duas mulheres gritam em procissão despercebida
Femininos orgasmos da alma
Nosso gemido sobrepõe a palavra
Nasci para ser mulher.

Sobriedade


















Meus homens em desalinho cumprimentam minhas coxas indefesas
Ávida, esguia e compenetrada
Não há gravidade estabelecida enquanto subimos
Desesperados, transando embriagados em azul
Estou grávida de três abraços
Suguei em uma dimensão inversa a sobriedade
Todas as noites em que se deitam sob meus olhos sinto o quanto é demasiado monótono estar sóbrio
Meu orgasmo era aquele lá
Meus homens choravam em fluidos penetrantes
Molhavam meus seios doloridos
Os degustei como quem prova um vinho ruim.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Encerro














Sepulto o último poema
Volto no tempo
Rumo a qualquer corpo
A boca despede-se de uma dança breve
Encerro a prosa nunca encerrada
Confundi todas as fugas e procuras
Retorno. Todo ardor levou-me a destroços
Quando me dei conta, a poesia estagnou
Desaprendemos os versos curativos
As próximas invasões terão avisos
O caminho foi vencido
É chegada a hora de todas as rupturas
Fere e afasta
Acabou-se toda a tinta
O que escrevi,foi guardado sem registro
Aqui jaz a palavra não acabada.

Injeta-me

Guarda-me em uma caixa rasa e amarela
Cuspa-me na primeira guerra
Ventila-me em desassossego persistente
Dói-me quando o tesão não escolhe
Coma-me entre tuas pernas
Injeta-me teu gozo nas veias
Devasta meu livro sem ler.

Avenida












Escreve sob meu ventre teu nome
Guarda tua saliva para minha língua
Meu colo pede moradia
Aqui, vapor tem denominação
Escorro por baixo das fontes
Gosto e desgosto
Este corpo é uma avenida intocada.

Nação poesia


Desjejum de sentimentos
Meus versos nunca me cobram
Abri os verbos e minhas pernas
Taquicardia dentro dos lábios
Trepo em fluídos cortinados
A nação poesia me atrai.

Outro corpo


Preciso emergir desse papel
Acalmo-me, a letra muda
Quero sangrar em teus prazeres surdos
Estas noites querem dormir dentro de outro corpo
Lavo os cabelos imersos em meu líquido
Troco sarcasmo por gozo mútuo
Não sou santa, mas, nunca estive a venda.

Sabor de sangue


Vem comigo, como se eu morresse aqui
Na boca, sabor de sangue, chave e queimadura
Território para todos os feridos
Suposta arte, casa de minha morada

Não o chamei aqui
Permito manipulação em teus afagos
Não sei sobreviver ao verso infligido em teus dedos
Opto ficar sem teu gosto

Deixa minha poesia em paz
A todo custo embriago as origens de tudo
Estou amparada por quem me rendeu
Fui gerada em uma sexta-feira

Espalho uma prematura sabedoria ordinária
Emancipo meu corpo
Só conheço a fragilidade intransponível
Força paradoxalmente fulminante

Maturidade que inibe expectativas
Meu leito tem ódio de te amar
Renovo meu orgasmo em entrega
Errante, faminta e em saudade aguda.

Bia






















Erro as cores de todas as ruas
Sinto falta de Bia
De tudo que ela confessou à minhas saias
Nossos relativos conceitos da tridimensional alegria
Começamos a fazer leituras, caminhos, superfícies convexas
Gostaríamos somente de sombra
Esbarramos em sonoridades
Atropelando ânsias, queremos mesmo é morar na rua
Preparamos todos os ânimos
Não medimos, nem contamos, acarretamos os dias
Fazemos festa de toda continuidade
Bia me faz desesperar os versos
Sabe todas vontades
Pescamos sorrisos de todas as lágrimas erguidas
Somos faca para prisões convencionais
Vamos comover nossas frustrações?
Bia é minha pluralidade.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Doze

















Saio desnaturada, através do suor universal
Tomo goles das poças de chuva
Lava e concede a identidade de meus ossos
Quero canção dos que tocam e deixam
A lei rege uma imaturidade que não quer crescer
Visito ironias e contesto vontades alucinadas
Na varanda, correntes elétricas de boas lembranças

A loucura é nossa
Não retrocedemos nossas origens
Pó e uma felicidade calorosa
Travessos e deliberadamente verbos soltos
Brincamos com a fome por versos
Estaríamos únicos e inteiros
Aproveitando o trago de vida nas mãos

Bêbados ou não, o que escrevemos é o entendimento das almas
Doze corações afoitos
Nosso caos é antigo
Bebedeira desmistificada em nossos sorrisos
Faço pintura de nossas utopias
Persuadimos dias de semana transformando-os em feriados
Estes pés inquietos nos povoam

A poesia invade nossa casa
Nossa intensidade colorida
A construção é imediata
Construam os poetas!
Tem dias em que se prefere ficar com nossas fugas libertinas
Somos nossos...A grande alternativa de um futuro grávido
Irremediavelmente coletivo espasmo de ternura.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sexo ateu





















Os passos prostituídos
Ensanguentados esperando o futuro
Sêmens embriagados entranhados na vagina do céu
Qualquer Lúcia reinventa seu nome
Todos os ardis têm preço
A língua reconhece textura e imaginação
O ventre permanece nu, curioso e atrevido
Sexo ateu
Unhas aperfeiçoam cada orgasmo
Através do gosto, uma língua
Transo com o alimento das estradas deste corpo
Fecundando cada curva
Carícias sob o teto
Sal para todas as erupções
Os prédios enlouquecidos fazem amor
Invada, submerso em gozo
Engula, adentre
Umedecendo os sentidos
Afluentes de meus quadris
Dou-te o corpo, sexo que sangra em flores
Um leito respirando ritmicamente
Vadia concepção da clausura entre os dentes.

domingo, 19 de julho de 2009

Entranha
















Admito teus olhos traduzindo meus verbos frágeis
Contornando minhas caladas restrições
Desequilíbrios ditando nossas ruas imaginárias
Teu cheiro imaturo
Latente vontade de minhas frestas agitadas
Abstraindo sem perceber
Preenchendo a espera árdua do prazer
Esta chaga inofensiva que entranha
Numa corrente imune de orações
Tua boca que mal conheço ronda como saudade crua
Vou visitar a língua com meus próprios versos.

Suor e saliva

















Árduo processo, feito de grãos antigos
A alma negligenciando ternura
Tentarei exigir muito barulho
Todos os lampejos serão esguios
No começo da rua, verbos são apenas verbos
As gargantas ardem e sufocam
É como se fizesse amor por mim
Tanto suor e saliva
Ilicitamente atordoada, nasce pra fora
Nas ruas de um Rio tão antigo
Minha inércia está nos pés
Poros encarnados de tempo
Minha boca recebeu por anos convidados tolos
Vou despindo-me
Hoje, o corpo está livre
Agora, desejo a nudez da alma.

Distonia






















Visito tons, verbos e carinhos
Fragilizando o tempo
Teimosia
Por instantes eternizei bocas, beijos e poesias
Nua de intenções, não posso renegar os gritos
Encontramos um verbo e alguns vestígios de desejos
Talvez, do que ainda poderá, simplesmente já o é.

Estagnada orgia

















Um peito chumbado de desafios
Em diferentes sensações, julgando-as não serem merecedoras de meu amor
Erroneamente generalizo meus versos
Despeço-me diante do antigo
O caminho talvez será o mesmo
Sigo exausta em horas vencidas
Estou aqui na imobilidade desta farsa diária
Quem não mais escrevia voltou
Absoluta agonia destas lacunas doentes de felicidade
O poeta seguirá então sua travessia
Prepara-se com antecedência
Estagnada orgia poética
O que queremos é apenas um verso.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Pulso e papel

























Quem se diz poeta?

Da comunhão de nossos versos
Amores gerados em aço
Inventamos todos os dias nossa própria hemorragia verbal

Abro o verbo mudo
Dentro de julho sinto a morte viva
Unção de meu ventre com as linhas insolentes

Não deixo o medo escapar
Devastem a radicalidade extremada
Da próxima vez serei verbo demasiado

A força de meu poeta vem da fragilidade
Paradoxalmente trabalhando o que ama
Não conteste esta vã percepção

O que me absorve é este líquido mágico
Surreal, nascido e declamado em pronúncias poéticas
Aqui, a alma entrega-se a pulso e papel

Serei exumada de meu espelho aceso
Estes dedos não sabem mais silenciar proporções
Minha rede ainda balança com teus versos

Pertenço a uma tontura permanente
Peco em palavras que só aquele poeta possuía
Esta estrofe necessita de tréguas

Todas palavras tecidas em tempos de cólera
Rasgo aqui, traduções indizíveis
Escrevo no mesmo ventre escuro

Verso infligido
Fervor noturno
Orgasmo partilhado.

Estúpida poesia


Não serei daqui
Ainda escrevo meio e final
Faço cócegas nas palavras

Serei louca enquanto o corpo fala
Hora de dormir
Invada todas as falsas memórias

Esse verso é o mais persistente
Denúncia deste meu amor por trás dos muros
Ambos querem o que não foi pintado

Criei ódio por meus órgãos latentes
Este teu azul intenso
Transitando em meu sono

Habita em minha transgressão tua origem
Aqui dona da poesia, sou filha do barulho
Me permito chorar cada pedaço que falta

Não ouso dominar minhas farpas poéticas
Fique assim... Histérica e estúpida
Meus braços são pincéis de minha sepultura.

Deixei-me arte


Deixei-me para arte
Certamente a raiz é manifesta
O que me distingue é o destino das intenções
Enquanto minha origem for devaneio...
Recolho os labirintos vencidos

Errado. Ninguém despede os versos
Só procria e transborda vontades indefinidas
Meus laços seguem livres
Do que nutro em mim, não há lugar para despejo
Inesquecível.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Desvirginado pudor

















Os pecados são supremos
Instinto que deturpa os desejos
Dialogando prazeres indevidos
Absurdo estampado
Pertenço ao corpo atado
Fome generalizada
Consagro paixão dos semens
Desapego e vontade
Naufrago no sentimento e vício
A matéria arrepia
A loucura deste sexo ainda sabe sorrir
O ritmo-arduamente agudo
Incondicionalmente desvirginado pudor
Sensação-plenitude
Implosão e descontrole
Dissolvendo inibições
Os corpos imersos em cheiros vivos
Meu membro é teu abrigo
A boca pede carícias insanas
Teu sexo escorre em meus fluídos
Hoje, a pele dita as ordens...
Constato na febre meu bem estar.

Insana



















Enlaço-me em saudades
Todas as descobertas desencadeadas por rupturas de tempo-espaço
O mundo despeja variedade
O tempo espera
A poesia vibra em sua condição de mulher
Namoro a veia profana de qualquer desconhecido
Ceifo toda a verdade sem constrangimentos
Transo com todas as dores das liberdades imaturas
Todas as covardias são mesmo assexuadas
Minhas vontades penduram-se em teu pescoço
Frutos omissos correndo no canto da boca
Pra que prazer?
Penetração é ferida aberta
Meu sexo imerso em poesias insuficientes
Preciso da violência em todos os limites
Escrever a profundidade do caos
Serei promíscua em teu papel
Todos os gemidos surdos
Justifiquem os oprimidos e seus gozos entranhados
Tuas causas são arcaicas
Inversão do corpo estranho
No peito, toda realidade é insana.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Ventre poesia





















As palavras embruteceram em ruídos
Acordo para o avesso
Minhas vontades são suplícios discretos
E minha alma repara toda a fuga com ansiedade
Mordendo as expectativas o corpo acorda da noite
Todos os indícios do lugar imposto
Delato meus poemas
E revolto a causa da morte
Irrompendo o papel do corpo rasgado
Entrego-me aos versos ausentes
Hoje o ventre poesia está ressecado
Amputaram-me a estupidez necessária
Minhas veias contaminaram-se de uma maturidade perversa
Sabedoria adulterada contra o desejo do corpo.

Contexto
















Me disponho ao recesso
Queria passar o avesso de todos os dias
Quando se cai fora do contexto
Chorar é inevitável
Todos os espelhos são imediatos
E nem toda realidade é induzida
Vou saber perder as sensações concretas
Sou dona deste meu corpo, e ele pede pra sair
As linhas mostram tempo, hoje vi meu relógio antigo
Resgato passos mal dados
O fluído sucumbe as veias.

Absurdo primordial





















A poesia pode vir resolver isso aqui?
A sensatez dá-me náuseas
Severa em atitudes, minhas anormalidades já não salvam
O frio melhorou, mas aquelas sementes foram de verdade
As convicções estavam indissolúveis
Tecemos sentidos deitados em azul

Esta mesma razão que afasta, não me aprisiona
Sou devota das palavras e poupo arrependimentos
Sei retomar os caminhos
Sofrer ainda engrandece
E todo conflito é argumentativo
Os desvios são rotas

Adaptei o absurdo primordial
Os delírios tem a mesma entonação
Todos os infernos são parecidos
E já sei brincar nos campos das idéias
Descubro surpresa os dissabores das letras inconscientes
Meu punho causa mais do que me cabe

Toda minha sucata é rotativa
Não julgarei as regras de qualquer partida
Só não peça pra mecanizar o extremo
Sou mesmo tola por convicção
A infantilidade ainda acelera os movimentos
Gostaria de atravessar o presente e fazer do amor atemporal.

domingo, 12 de julho de 2009

Mediar e adiar


















Medo do futuro
Ainda preciso enxergar em teus olhos
Tua prece legítima e eu escolhi a mediocridade
Não nego meu tempo, mas quebro minhas certezas.
Desisto, escolho o extremo
Gostaria de sentir encaixar um no mundo do outro, o suor das horas
Transbordo errado

O medo me analisa-paralisa
Nunca me basta, uma felicidade que nunca é
Minhas mãos por vezes são acomodadas demais para massagear um coração
Racionalidade avessa
Não fugi tanto assim, é preciso estar limpo pra deixar entrar amor
A realidade me remove (me renove?)
A fuga alimenta meu declínio

Mediar e adiar
Antes de legitimar culpados, deixe o que não interessa
Sobrevivência estagnada em versos
Nossas escolhas virtuais frustrantes
Sabedoria inútil quando se quer pintar a boca de mel
Acordo, quem dorme agora é o tempo
O medo se apavora porque preciso continuar queimando.

Traduza-me






















Agora, aprendi que não se salva nenhuma brisa que tenha desistido de beijar as montanhas.
Sou responsável por esta falta de ar
E como emergir da morte na saliva?
Porque o que reconheço não é meu corpo
Tudo me rasga e abandona
O grito quer pulsar as paredes que ainda me prendem

Não deixei espaço para cura escolhendo a fuga pelos muros
Ainda assim, a brisa leva letras para aqueles que não pudemos estar pessoalmente.
Sei do que falo: sei causar como ninguém meu próprio desmoronamento

Meu menino devaneio
Eu não sei amar
E as linhas me dizem que te amo

Não queria desejar o que tem dentro da sua boca, mas preciso desvendar a língua
Engulo agora o que corre dos olhos
Perdoa-me diante deste silencio
Meu medo ereto

Lamento, não ter dado água, além de minha torneira enferrujada.
Ainda escrevo desejando as línguas enroladas entre si
O amor transborda correndo em círculos
Ainda o amo devagar e silenciosamente

Consegue traduzir meu choro?
O caminho talvez seja o mesmo
Por mim não passa
Leve-me inteira
Culpada de todas as saudades

Confundem minha fuga com falta de amor
Destrocei meu amor querendo salvar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Prostituem a poesia


Masturbo o arrepio das palavras
Forço as mãos a rabiscar
Permaneço crua dentro das estrofes, excluindo versos escassos
Minha poesia não é domesticada

Gozo plena nas rimas que escorrem
Minhas mãos prostituem a poesia
Sempre soube que nas letras, nada permanece fixo
Gosto do sêmen poético

Transgrido ordens verbais
Ascendente desejo de não fazer rimar
Leituras, posições inversas e poucas verdades
Comunico-me com a produção de meus gemidos

Não sei construir estórias, pois procuro o que já foi queimado
E desse sofrimento nasce um cruzamento natural
Estes versos colam na boca, transmitem uma química imprevisível
Perfurei os pensamentos sãos desta folha em branco para minha nova menina rabiscada.

Deslizo em linhas


Perdão, só conheço este mundo
Aqui, as letras transmitem também a genialidade dos horrores
Sublime gestação dos versos
Há a mesma transgressão perante as células

Perdão, sou filha dos versos livres
Nasci da ovulação por razões insanas
Mamei nas tetas da travessura
Há neste caule um trajeto infantil

Perdão, escrevo para fervilhar pecados
Invento lares e prosas mais gostosas e o meu sexo traduz as linhas
Fotografo cada respiração da palavra não dita
Há um retrato em minha próxima ebulição

Perdão, quando escrevo, sei despistar os sabores mais fortes
Minha insanidade sopra e sangra, refugiando minha libertação
Deslizo em linhas, escavando as palavras sobre os tetos
Há uma cratera nas mãos que brotam poesia.

domingo, 5 de julho de 2009

Sangro ou cuspo















O arrepio na nuca me faz errar as somas. Meu cheiro pertence às ruas e os pés em sandálias rasteiras multiplicando-me.
Peguei o café e sentei na beirada da cama, a cada gole desenvolvo meus traços comuns, eu sempre corri, e agora prefiro passos lentos, latejando força e fragilidade.
Sangro ou cuspo, ainda existe variedade em ser nada.
Os goles parecem mesmo ter lavado todos os meus receios, o cheiro de café me atiça.
Uma leitura tão perfeita que faz com que eu pense que ele sabe exatamente como estou deitada nesse quarto trancado e que ignore o fato de ter raiado o dia nas frestas da janela.
Um estado de graça desconhecido, quase chorando, quase rindo.
No telefone, madrugada adentro, delicio-me neste absurdo audível. Calando-me por instantes como se apreciasse as notas de uma canção descompassada.

Quando antigamente
















Para Danda



E era cedo lá pelas tantas da manhã
Quando antigamente prometi lhe dar colo de amiga
Cujas correntes não levem a destroços
As marés em tua casa me ensinaram a amar melhor

Nas noites adentro fomos bêbadas de alma
Nosso escuro sempre partilhado
Nunca soubemos a que horas amanhece
Indisciplinadas das rimas!
Reduzindo o sono, flutuando todos os cobertores possíveis.

Esperamos que sejamos o suficiente, fervilhando só pra não rimar
Descaradas!
Correndo no vento
Tampouco findará os cafés e traquinagens

Talvez a gente só precise de um bom abraço
E uma tristeza luminosa pra ascender
Gargalhando de nossas esfoliações na alma

Não tirem a fantasia!
Moramos nas casas dos tolos

É preciso voltar no tempo para uma existência de nossas cores
Pousamos leve nos chãos de grama
Pra viajar memórias de tempos sonoros
Brisa arisca

Que os dias voltem àquela tua rua
Até esse dia, doutrinamos nossas raízes.

Meu passado me presenteou
Arrumou tradutora pra meus versos
Ela me olha lustrando os meus sentidos

Somos todas as vozes juntas
O que nos sobra, tu danças e eu escrevo.

Moro onde nossa gargalhada deságua
Somos mesmo atordoadas
Por versos que alimentam os dias.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Travessia



























Das conversas com um Marcelo(rs)


Renuncio o sono
Minha travessia está apta a novas esquinas
Fico querendo mudar de lugar, como se fosse possível acordar pra dentro.

Sou filha da palavra entendida!
Rasura e descaracterização!
Maturidade profana!

Corpo curvado... Dispersão.
Letras quase perfeitas se não fosse agonia que tu cultivas no peito.
Hesitei minha ida.
Já rasgou superfície.
Inocência descarada em causas impróprias.

Na minha mão tuas letras. Na palidez da certeza a pele enxerga.
Débil comunhão, aguda e sonora.
O verso entranha.
Impulsividade!

Insistente vício esse... Quisera ter meu “M” cravado notificando teu crime suado.
Ele quer amar-me diferente. Rabisco desconhecido.
Na palma do mundo: Quatro mãos tecendo uma possibilidade virtual.
Durmo e acordo em tua respiração
Espero nosso orgasmo como a uma oração.

Não vejo outra maneira, me desculpe querido...
A emoção ali, coagida...
Teus delírios convincentes...
E eu: despudoradamente recatada
Sincronia de espasmos

Meu tempo é progressivo!
De ampulhetas vazias!

As expectativas existem, o silencio se pronuncia, trazendo entidades surreias... É tão difícil escrever sobre este amor...Ele pede o dom e o verbo.

Teci todas as minhas palavras, atravesso minha própria anarquia, sonho com o clarão deste maldito dia!

O que tenho é um cálice supremo de aconchegos e diferenças, esta saudade aguda.
Desejo colhido e recolhido.

O susto em nós foi descobrir portas. Vários conceitos para se falar a mesma coisa.
Se quiser saber o que penso...Meus dentes querem arrancar teus versos
Soprar-me pra dentro das tuas feridas.

Receio estar sucumbindo entre farsas doces. Meus olhos não sabem dormir.

Aproximo minha boca devagar e você tão assustadoramente apressado... Mal sabes que a ação que quero ver está na íris...Não consigo ler!
Das linhas castanhas que escrevem nosso brilho.
Se me espera mais um pouco, meus olhos lubrificam os céticos abrigos. Devagar...Como a alma.

Respirar...Respirar...Como se fosse transmutar do verbo.
O que queremos é apenas um verso...Eu sei...
Meus versos pedem somente água...Não exijo outro barco
Nossas diferenças não distanciam o peito

Não forjo meus desejos
Minha salgada estagnação.Meu mar nunca está calmo.
Ponho tudo que preciso, não sei mesmo nadar.

O que sinto é mais fundo do que tudo que vejo
Desnudo-me dos meus órgãos inúteis
Amar sem dizer amor
Insisto. Não deixo passar o verbo
O lugar que ambos querem

Amar é a soma das experiências passadas, combinadas com a imperfeição humana.
O silencio ainda pode dizer muita coisa.
O amor que não abraça a falha do outro não é amor.

Mas o medo não vence...Fique tranqüilo
Vou curar minhas febres nas preces de nosso sorriso.

domingo, 28 de junho de 2009

Mude as linhas
















Entre risos e brincadeiras rotineiras, você me fez um pedido, prometeu que seria o último, e eu não poderia negar.
Sorri curiosa... E gargalhei ao descobrir do que se tratava.
Você me pediu que trocasse meus versos rebuscados por palavras claras, nítidas pra você, o que me fez encarar a proposta como tentadora.
Seguindo a linha de raciocínio, com ar misto de seriedade e autoridade pediu que eu escrevesse o que sinto, e se ainda sinto o gosto da tua boca depois de tomar café.
Ainda surpresa, sorri sem jeito, e revelei que gostava da sua boca entreaberta com sorriso de canto.
Confessei a falta que sentia de ouvir as teorias filosóficas saindo dessa boca, e que nossas conversas e questionamentos a respeito da raiz do mundo existencial era convite para fazermos amor.

Aquela noite em que li tua existência... Foi memorável. Você me pedia ainda rindo que escrevesse nas suas costas minha visão de nós... Sorri como se tivesse novamente doze anos e consenti travessa ao seu pedido.

Suas costas me diziam:

“ O avesso da pele arrepia meus poros”

Naquela noite, não pedimos mais para ficar. Fizemos amor ali, no chão da tua varanda, um amor imoral e ausente de pudores. Quando terminamos, a imagem que mais me marcou era a das tuas mãos acariciando meu ventre... Meu quadro pintava tuas mãos afagando a pele ainda quente. Tive quase certeza de que pensamos juntos enquanto nossos olhos fixavam em minha barriga... Teus filhos já não sairiam mais do meu ventre.

Você sabia quais letras do meu corpo arrancariam da boca suspiros.
Apoiei-me no teu ombro e fui em direção ao álbum de fotografias. Fitei uma a uma memorizando todos os momentos em que eu não estaria mais. Deixaria de fazer parte de você. Senti-me um pouco angustiada ali... Você queria chorar, perguntou se era o certo. Eu interrompi... Sorri e declamei mais uma vez aquele poema feito pra você:

“... Meu mago terno... Dedicar-te o amor que espreitas, é negar-me vento ser...”

Você se aproximou, fez novamente amor comigo, mas desta vez, doce, amigo, irmão. Beijava minhas bochechas e me acariciava a testa. Ao fim, pediu que eu não o esquecesse.
Você faz parte de mim, respondi.

Não choramos mais, a vida se encarrega por si só.

Não sou mais menina dos teus olhos, avisei enquanto abotoava a blusa. Meus olhos miram muito pouco agora... Tua menina era sedenta de mundos...E esta aqui, quer pouco demais pra você.

Você permaneceu com o sorriso nos lábios, sussurrando que eu seria sempre menina.

Sorri também, beijei sua testa, e lhe agradeci pelo último beijo de café.

domingo, 24 de maio de 2009

Desenho das sementes

















Meu menino agitado
Teu gosto ainda não passou por minhas mãos
E toda pele mora filhos da espontaneidade
Nem sabes quanto gosto desses teus cabelos pretos entrelaçados em meus dedos
Ficar em teu colo até os vidros queimarem...
A pele atrai e teu sexo me completa
Nosso ardor é incansável, deixo que me tomes nua e que pinte em meu ombro o desenho das tuas sementes
Vou beijar teus ouvidos na tentativa de leitura do que espreita imã
As árvores se curvariam todas beijando-me o bico dos seios
e eu iria deixá-las na ânsia de gozos regados a chuva
Acho mesmo um encanto tua crença em um branco mais vibrante
Delicio-me em tuas expectativas por tronos mais justos
é tão terno nossos laços recém prendados
Tantos mundos pra se recriar
Na tentativa de pés mais descalços, sinto em quase intuição, que nossos pés seriam mais dançantes no mesmo trilho daquele amarelo
Cativada por toda a simplicidade e empatia, vou dobrar todos os muros cinzas que construí ao fim, vou abrir-te minhas janelas na breijerice de quem cata as frutas das árvores vizinhas
Se os braços não alcançarem- os frutos ainda são verdes
Mas meu homem agitado saberá olhar-me com ternura, me beijará a testa, concretizando a moradia daquele amarelo
Este amarelo ainda finca o chão, tem tanta coisa pra se pintar...
O amarelo daquele trilho está pra chegar.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

"Carioquês"


Que me perdoe Clarice, mas bom mesmo é viver no Rio de Janeiro
Divino então, é carregar no sotaque a história e cultura de nosso "carioquês".

São nos becos e ruas deste Rio democrático que o sangue ferve, pinta um ar sortido de todas as tribos com todos os santos
Das ladeiras do morro, às calçadas portuguesas da Gonçalvez Dias, neste centro histórico, neste chão batucado
Nos cafés da Ouvidor, ou por entre a multidão do Saara,as ruas denominam-se: tradição

Este Rio que intriga e gargalha descaradamente
É raridade se ver por outras bandas uma rua denominada Primeira no mês de março beijar as costas do mar
O lar da arte poética dá as graças: Rio Branco- todos os monumentos prestigiam tua trajetória

Amo as sextas de rostos coloridos e sorrisos gingados, sentar nos "butecos" de teu eixo cultural, tomar um chopp no Amarelhinho e ouvir o mesmo Cordão da Bola Preta que "sapequeia" nossos Fevereiros.
Que seja pois, atravessar a rua só pra tomar o suco de manga do Paço imperial

Lapa, Lapa: quem te fez assim tão querida?
As mochilas e rasteiras deste pequeno canto nos remete a boêmia das noites que vão até meio dia.- Teu samba não tem igual
Praça XV dos contrastes acomodados, por entre um de seus becos a feira mais alternativa que a arte poderia conceber- aquelas fotografias tinham mãos que acariciavam os expectadores, e os quadros sorriam para o céu sem nenhuma nuvem

Quem vê, há de concordar que os melhores artistas do mundo são estes descalços na Uruguaiana, na Central do Brasil ou no sinal da Presidente Vargas
Não vá para o Chile- a melhor escalada do mundo está no morro da Providência, os heróis estão todos lá
Não há dúvidas acerca do encantamento do mar do posto nove. Mas o que causa a sensação de "borboletas no estômago" é o povo desta terra. Quem presencia a ginga de levar a vida volta de onde quer que esteja: a.p.a.i.x.o.n.a.d.o

Terra travessa...
Bom mesmo é amanhecer o dia nas rendas das tuas saias.

sábado, 16 de maio de 2009

Súplica



























Poema feito em parceria com Marcelo D. Amado.

Suplico
Complete-me
Tenho as trevas em meu manto
Trago a dor em minha voz
E ódio nos olhos

Imploro
Tenha a mim e terei a ti
Dou-lhe o poder para tirar a vida
Dou-lhe o sorriso sarcástico do psicopata
E o olhar gelado do dissimulado

Ofereço-lhe minha alma negra
Para que teu sonho embale
Rasgo minha carne e te dou de comer
E para beber lhe dou o meu ser

O que tens para mim?



Ofereço-te um azul instransponível, um azul que inebria todos os órgãos,
A loucura excedida por teus poros rasgados
Minha alma é luva
Escalando todas as inverdades

Consinto com tua súplica
Tua presença quase interminável
Nem você sabe,
Está na minha boca

Nossas almas se correspondem por versos
Lírios de morte consagrados
A boca lê desejo
Percorrendo sons do insano sono do verso

Farás de meu corpo teu alimento supremo?


Se assim desejas, farei de ti o meu banquete
Tua pele, boca... Teus dedos em meus lábios
O gosto das cores que jamais ousei experimentar
Sentirei teu azul em minha língua

Sabes que a escuridão não suporta cores?
Me fartar de teu corpo é minha sentença
Minha existência será então contada em lendas
E os homens não mais morrerão

Será o meu fim, meu doce fim
Mas ainda assim suplico, imploro
Tenha a mim para que eu viva sempre em ti
Complete-me
Complete-nos


Nasço do mesmo escuro que guarda tua sentença
Por entre ossos tênues construo alicerces de um medo que sempre penetra
Minha solidão é ereta, é firme, tem raiz, textura e cor
Meu corpo animal estranho em mim

Tenho em mim que tua fome seja de versos mortos
É a escuridão que docemente me sabota
Logo, saberás do medo, este amigo ingrato que nos toma os limites
Este mesmo tirano que nos liberta da razão...

Desejo então, te olhar sem grades
-ele já não me ataca-
Manso, audaz, na perspicácia de seu silêncio...
Perambulo hoje em teu vazio

Que estrada leva a nós?


Meu único medo é não poder ver mais a tua luz
Essa mesma luz que me trouxe até você
Perguntas que estrada leva a nós
Mas qual estrada não tem nossas pegadas?

Eu vim pelo caminho do teu desejo
Atravessei a ponte que separa teus princípios
Segui o ronco de tua fome carnal
Ávida
Puramente impura

Estrada de desejos profanos
De pensamentos insanos
Onde nos unimos sem pudores
E onde me perco em teus pensamentos
Logo eu, me perder por você, logo eu...

Que queres você de mim? O que queres com a morte?


Desejo da morte, o gozo sereno dos esquecidos
Termina o tempo de estancar artifícios
E quanto a mim, desejo as mãos pintando as sementes de tuas vontades
Queremos a ausência de luz , tragos de insurreição
Tens mesmo um lugar pra mim?
Eu quero é eternidade
Despejar o caos
De todas as certezas violentas
Deleito-me das tuas sombras que racham o chão

Todos os teus labirintos são tecidos
Esculpindo as dores de toda transmutação
Meus dias estão sedentos desta doença tecida por tua dor
Tenha misericórdia de meus restos de pureza

Agora? O corpo padece de alma!


Tenho todos os lugares para você
Por que esperar mais? Venha
Me dê a mão
Suba em minha carruagem

Eu lhe dou minha alma eternamente negra
Vista tua pele com minhas sombras
E eu me rendo a tua invasão de luz
Me entregarei ao que chamas de amor

Atenderei teu pedido e teu corpo será meu
E sentirás as mais belas e arrepiantes sensações
Enquanto sugas a minh´alma até que eu me desfaça
Terás a mim eternamente. E eu a ti... Etereamente

Chego ao meu fim e ao seu sempre.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

CAPETAlismo
















Amanhece no sistema
O chão é de infinitudes amarelas, regadas a chá de coca e pratos quadrados
O chão cabe na palma da mão do que se eleva
Adentro, compro-vendo
E regem eles em suas artimanhas
Cuspindo tributos
Dar à Cézar o que é de Cézar?

Deixai vir a mim as criancinhas para que seus ventres ocos ronquem por pão
Pai nosso que estás no céu...teu reino é de difícil acesso, já não cabem fretes dos jatos do governo que nos façam chegar a ti
Santo cálice do planalto, este é o sangue do povo, bebei em virtude do fim
Amai portanto, o próximo como se essa, nunca fosse a sua vez

Os cães mordem a beirada das expectativas
Rasgam as preces dos que tem frio
E lambem o sal dos olhos miseráveis
O chão corre rumo aos passos
Qual a direção dos pés que definham?
Enviem pois, cordas para seus pescoços
E lancem mãos à escravidão contemporânea

Matem as mémorias dos fracassos vergonhosos
E driblem a realidade da prepotência
Vamos todos parir filhos da américa e morar no sonho da terra alheia
Chupar as mangas da mesa provisória e ludibriar a semente abandonada
Reunindo a fé precária em cristo,igreja e dízimo vamos fazer fortuna em ruas de ouro do paraíso...
Dopar toda a sensibilidade e intelectualidade na tela de uma TV
Colorir os fios e veias da grande conspiração do ego...

Vida longa ao progresso decadente.

Partida


É aí então que você esquece de todas as coisas triviais e só pensa no ar que não passa para os pulmões.
Ficam pra trás todas as despesas, aborrecimentos, frustrações, erros e acertos, tudo se esvai junto com o ar que não volta...
Você crê com todo fervor e clama pela ajuda dos céus, o sufocamento é desesperador.
Você não lembra da raiva, da vergonha,do tédio, da melancolia, da paixão,do sexo. Você não pensa em mais nada a não ser no fato de que sua vida está se esvaindo em frações de segundos.
A vida partindo com a mesma estranheza e ferocidade com que chegou...
Suas histórias ficam todas para trás e sua existência será pouco a pouco esquecida...
Você está deixando de fazer parte da vida tal como conhece, enquanto observa a aparelhagem em volta de seu ente querido, aí você morre um pouco.
Depois que eles partem, nossa vida se altera, abrindo passagem para novos olhares sob nosso curto ciclo existencial.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Denominadas

























Os cabelos cheiravam a frutas cítricas, os olhos eram grandes e arredondados, fixavam apenas os olhos da outra, e ali deitadas elas se amavam com força e sem pudor.
Ela amava vê-la cantar e improvisava cenas de ciúme na tentativa de certificar do zelo que as mantinham sendo apenas delas.
Elas se desejavam e se queriam nas praças e a luz do dia, os beijos eram de língua suada, e as unhas sempre marcando cada trecho de sua euforia.
Elas engoliam o mundo e abafavam todos os olhares a cada abraço e mãos com mãos, nada mais existia, apenas o desejo de tingir de amarelo cada fresta da noite.
E se infiltravam nelas mesmas a cada dia, era a falta de fome, a ausência de frio, a partida das convenções...eram elas...denominadas: frescor.


Natacia Araújo.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Encontro















Se conheceram meio que ao acaso, os olhos dela fixados na foto dele. Algo diferente naquele rosto... ali brotou a curiosidade e encantamento.
Conversavam a cada novo gesto. Vida nova a expectativa.
Quando encontraram-se a primeira vez as pernas tremeram, os olhos os entregavam, a ânsia era plena...
Pareciam ouvir os pensamentos só com os sorrisos esboçados.
Algo novo,a espera de uma certeza?
Era bom...tão bom...mas as estradas estavam paralelas...
No último encontro o auge de tudo que queima: o gozo, o grito, a frase e o fim.
Ainda deitados no chão de seus sexos, eles permaneceram calados, serenos...
Sabiam o quanto era justo que não levassem a diante, justo com o destino que não os queriam assim...
Fingiram não saber que aquela era a última vez
Passados sopros, receio: sabendo que a foliã marcava versos de sua vida a areia exposta. Falaria ela um dia o sopro de suas cantigas?
Ele a olhava vez por outra,tendo a convicção de que a troca ainda discreta era recíproca.
Certa tarde, brindado em agonia de sua curiosidade, decidiu sondar todos os versos dela, pois sabia que encontraria algo só deles ali.
Sentou-se frente ao computador com uma xícara de café forte ao lado, mexia nos cabelos sinalizando ansiedade...seus olhos riram: ela os mencionou...ele estava ali, e entendeu que se tratava dele na primeira frase que lera, as sensações eram lembradas a cada palavra lida, aquilo só podia ser o sopro que só cabia a eles, o sopro de suas cantigas.
Ele riu de canto...tinha agora a certeza de que não passara em branco na vida dela.
Ela, ao caminhar da última frase escrita riu: é...foi bom enquanto durou.


Nat.

sábado, 25 de abril de 2009

A medida do outro

























Há dias em que meu mundo não acorda mais para fora
Meu passado me presenteia e...passo
Habito extremos que nem existem
Sigo como quem perdeu a direção mais fácil
Não morro em casa
Canto antes ao olhar torto:
As pessoas são como estão...
Na rua das violetas o caminho é lilás.

Nat.

Doentes de razão


Assaltaram o que em mim dizia-se palpável
Levaram apenas a matéria do caos
É tão bom inventar tempos de nossa própria essência
A infinitude dos dilemas sorri em meus poros
O ritmo que percebo nas calçadas me diz tanto...
Onde as respostas me despertam
Dá-me Senhor um gole de tua insana lição de barro e covardia.


Nat.

Fuga ao desvario


















A verdade quer sair
Improviso verbo solto
Esbarro em linhas vasos e veias
É como se não pudesse mais abraçar a cautela
Despacho minhas palavras em cordas
Atravesso pois, as possibilidades de todas as ansias que me cercam
Ora febre oca, ora curiosa conquista.


Nat.

Campos imaginários


Norteio teu vento
Respeite pois então meu tempo
Habito neste recinto de abril
Devolvo a estima do sorriso dos sóbrios
Renovo a raiz cor
Nas cruzes de qualquer estrada
Jogo meus frutos ao mar
Abre-se então uma passagem entre os cravos
É hora de regressar.


Nat.

Infinitudes Amarelas


Estamos deitados em amarelo
Quero mais flores achadas
Fragmentos de tuas sementes alegres
Visto-me das plantas que embriagam
Só assim rego meus verbos
Atribuindo a vida
O entreabir das ilusões.


Nat.

O muro


No mesmo muro, por detrás deste preto-cinza
Ali saltam saudades
Cortam e sujam de tinta branca a calça marfim
Atrás deste muro preto e cinza
Meus olhos se enchem de concreto
E não são as paredes que ditam a subida
Há de clarear com chuva que arranha tinta
Autenticará no fino espaço de calçada e barranco:
Meus tijolos são grãos de girassóis.



Nat.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ego





















Ele vai e volta,
Em alguns casos é companhia constante
É traiçoeiro e ilusório
É mesquinho e por vezes contagiante
Se instala em classes distintas,em seres diversos
Amante das aparências e amigo do egoísmo
Inimigo declarado de tudo quanto fosse simplicidade
Cria cascas, crescem máscaras
Perde-se o essêncial
Morte em vida a espontaneidade.


Nat.

Café de outubro


Amanhece,
o café ainda quente e forte queima a ponta da língua
O gosto remete as tardes de terça-feira
O cheiro lembra as noite divertidas de papos sem sono algum
este copo de café sob a mesa posta traz sentido a vitalidade
Era hábito rodar teus cachos enquanto nosso café aprontava
Os grãos moídos por tuas mãos
Pouco a açúcar, aguçava nosso sabor
era quente, forte e memorável
Era o caule de nosso outubro.

Nat.

Tributo a Ilha Grande


Deu-se partida no motor
Abandono do precário e previsível
Acima duas nuvens
Indo e vindo por cima do céu
Avisto Deus e seus anjos
Tocando flores a mar aberto

O mar da tarde reluz rosa
Do céu espelho azul-verde mar
Adentro seis montanhas, morros e desertos
Ilusório das nuvens que me ponho a pintar

Líquido límpido
Canto de água e sal
Criaturas residentes a nadar

Terra pouca, rochas negras
Muralha dos santos
Paz serena
Te chamo menina
Te faço cantar

És moça sortida
Beija areia mar
Reverencio tua sabedoria
Venero teu lar.

Natacia Araújo.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Confissão



















Tarde vermelha ainda sentadas
Ela confidenciou-me sopros
O sopro era brisa imutável
Soprava mansinho por dez flores do tempo
Ela, contou-me tempo presente o que pesava na junção de antes com pra sempre

Naquela noite, ela sentiu misto de receio e alívio...
A pequena saberia ver com olhos ternos seu amor?
Ela, ainda atônita caminhou fora daquela praça, passos firmes, pensares confusos...
Pés novos a sua casa, braços rumo a crias...
Sentou-se no sofá, mirou-se frente a TV que transmitia ao mundo sua ventura,
Levantou-se até a cozinha, no rádio ela era saudada por tamanha coragem,
Dentro do banheiro, viu seus olhos refletirem no espelho, olhos tão brilhantes como da primeira vez...
Que saudades ela sentiria do hoje...alforria ao seu amor!

Lhe digo então mulher amiga:
Injustiça seria não sopra-lo e bendize-lo

Bendito amor
Nascido de lascas e pureza
Um sugava ao outro
Em busca do encontro de si próprio
Bendita chama
Ardendo as dez flores do tempo
Ele, carinho nas feridas
Ela, aconchego materno
Suspeito em vão, a grandiosidade a cada encontro
O quanto cresciam eles sendo somente deles
Meus olhos minguados de outrora
Brilham a vocês e os ama também.


Natacia Araújo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Nada existencial



















Consumiu-se rumo ao nada
Mal sabia alimentar sementes
(Nada fica após o fim?)

Ele a intrigava por tamanha inquietação existencial
Por vezes, tinha a sensação de que o homenzinho havia sido plantado sem raíz alguma
Tamanha angústia que lhe acompanhava
Brotavam de seu peito dúvidas a medida que a não coerência dos fatos esboçava rosto

Ele morria a cada resposta negada pelos céus
Definhava rumo ao fim
Entregava-se...acelerando quem sabe a resposta
Fitava meus olhos a sondar...

Jamais soube explicar-lhe o que só a fé emana:
Irmão querido... limito-me a não pingar-te das verdades que não possuo
Contudo, aproprio-me contar a ti, que viver é uma grande delícia...
A ternura de meu abraço ao ver-chorar as velhas fotos de nosso pai não faz de ti um vivo?
Rir quando o óbvio lhe agrada não é lindo?
Plantar novos dias não revigora tua alma?

O que lhe falta é tomar pra si um pouco desta loucura e brindar a contradição de quem nada pode provar
Ilusório por ilusório ópto por minha própria ilusão
Pois não nos cabe saber...
Vivo do que sinto...e para viver, os provoco, incito...

Na iminência da morte vou dribla-la até onde minhas pernas assim o quiserem
E quando dobrarem-se os joelhos, estarei na ânsia de novo feto
Pois, ainda que a existencia seja de poeira e vento, novos horizontes sempre aguardarão sopro novo...

Então, em todas as minhas vindas serei ventania, serei plena
Amarei livremente e sufocadoramente, docemente e indecentemente...amarei toda a forma de amor

Terei muitos amigos com os quais possa gargalhar
Terei pés descalços
E com eles fugirei de toda faísca de poder
Serei pequena
Serei brisa
Farei grande alegria de minha mesa
E aprenderei de meu banquete

Guarde teu segredo existencial, prometo compactuar
Prometa-me participar também desta poética farsa
Faz-me bem...
Fazes por ti também...
Jamais saciada então, irei intuir o quão passageira a vida é...
E mesmo em face do vento, não me negarei vento ser
Há de ser brisa quente borbulhando mar.


Natacia Araújo.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Mago terno




















Meu mago terno,
Braços e punhos
Criatura de manias grisalhas
Diz-me somos razão incerta
Diz-me que sou foliã imprudente
Intervalos de flor: acusa-me
Bagunço teu cotidiano
Invado tua semente
Banalizo pedestal
Faço pouco das pérolas

Rompo rasgo flor:
Me fazes tão insana quanto,
Cessa meu frescor,
Julga-me menina dos olhos teus
Planta-me nas tuas entranhas escondidas
Nasce, gera, equilíbrio do avesso
Amigo, amante
Canta no sussurro de minha idade
O desafino agreste de nossos encontros

Se te afago, terna e doce
Durmo em teu queixo sóbrio
Se te aqueço, queimo e marco
Desperto teus olhos antigos
São anos demais pra nós
Se te amo, amigo pintado
Desprendo de nós este laço
Posto que é prenda em laço-flor
Já não nos somos nossos...

Tato de nossas rugas
Abrigo de outras casas
Ainda assim amor antigo-feto
Me faço crua,
Dou-me arte pra teu estandarte
Ódio a prosear-te rimas
Sou negação do verbo
Amar-te o amor que espreitas
É negar-me vento ser.


Natacia Araújo.