segunda-feira, 26 de abril de 2010



















Em menos de um segundo,
Dividimos nossas vontades
Submersas no álcool do vento
As luzes do quarto apagaram-se
Com seus mitos e fardos
E nossas almas se esfregando de desejo...
Existe uma mensagem na tua pele
Que impede meus versos de empedrar...
É quando descubro o aroma das horas de tuas mãos
É quando nosso amor troca músicas e olhares suados
E essa tua boca/minha a ser a causadora de arrepios novos
Sensação legítima de mais outra madrugada febril
Lamento tua falta em meu vazio altamente escavado
Viro peregrina de tuas fotos/rastros/restos
E do que me sobra, jorra a imagem serpentina da solidão
Apago novamente a luz
Dormindo em um arcaico romantismo
Sigo bêbada e prepotente poetisa.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

















Resto-me ao chão de outras vidas
Gigante esfinge em pálida ressurreição
Em sua forma, tudo é sombra
Projeto o movimento ígneo desta casa
E o ouro debochado a nadar por cima dos móveis.











Embevecidas folhas
Pedaços tortos de natureza
Ventilando por entre as curvas esféricas
Preces necessárias do esquecimento

Placenta aos navegantes
Lamento no interior dos sonhos
Gradual noção
Malas no diálogo do silencio

Tentativas de trancar o peito
A coluna do lugarejo
Finda em frustração
Areia fofa do meu caos

O segredo do mundo em porções doentes
Insetos coagidos embaixo de pontes
Vou-me na hora que avisa
O amor pede moradia

Insetos carnavalescos
Saem voando de meu pescoço
E esta constante despedida
Na textura de teu caminho

As traças dormem
Procurando a origem do devaneio
É cedo...
Enquanto vida.











A leveza sobrevive da paz do outro lado da rua
Do outro lado, nossos opostos traduzindo templos
Estas amarras de branco sopram um cordão de vida
Quanto a mim, me casaria com teu mundo frio
Celebraria todas as esperas em solstícios impressos em minhas costas
Aceito as mãos gigantes de toda hipocrisia.












Lá dentro, sorrisos abertos
Quero ver de fora em teus muros doentes
Dentro: Um barro inútil
Fora: Tuas mãos dançam
Deixe essa canção inflamada
Vou sentir de perto teu peso
Até os crimes precisam de movimento
Pelas frestas, os olhos tem fome de voar.










Evolução simbiótica
Fingimento transportado entre os dedos
Espetáculo sucumbindo a poesia
Loucura real
Farsa para platéia
Poros fantásticos sem identidade
Telepaticamente fluem as batidas de outra vida.













Deslizes entre a ponte e o passado
Pernas curtas sustentam a subida dos sonhos
Emaranhados adormecidos em vários corpos
Atados como lamparinas do medo
Adestrados como correntes inversas
Suspensos em meus pêlos sujos e imorais

Atmosferas não lapidadas
Instalando a dimensão maior
Somos todos máquinas, presos em um desregramento interno
Tudo escuro já que somos ligados em fios dissimulados
Terra infértil de latas e bronze
Meus bicos desaparecem, azedo húmus que dita a subida.













Imerso em um vermelho trancado
Conectando troncos e membros
Sugando a fome do outro
Visitando qualquer sentido enquanto todos são figurados

O lodo de teu corpo rejeita este espaço violado
A natureza vigiada em cores desinventadas
Tuas plantas acordam em mim alucinógenas
Mostrando-me o teu vermelho querida

Reparto em gramas a ausência da lei que te condena
Tuas flores infestadas de submundos
Chás de sensações ambíguas
Vazio visível para dopar artifícios

Bebo desta tontura entranhada
Cuspo possibilidades lisérgicas
Teu jardim embriagado
Meu suor trôpego.














Mordo o pão não fermentado de tua missa
A hóstia é um pênis macio
Jorra em uma ejaculação fétida
Meu orgasmo morreu de uma virgindade desnutrida
Dentro do cálice, duas mulheres confiscadas por padres
Imagens sagradas de frades...
Tediosas cortinas para o pecado
O sangue em terços e escombros
Minha religião goza
Meu sangue melado em tua vulva
Minhas plantações mancham de sêmen
A língua saliva no botão da tua batina
Minha pernas latejando de desejo
Teu modo de ver é turvo
Em tua pele flácida mora um Deus intransigente.

domingo, 14 de março de 2010

Sobre Composições frustradas

Teus pedaços editados em partituras encruzilhadas
Num modelo de letras e corpos
Por mero acaso, dedilhei tuas notas de nova estrada
Pisei em meus relógios para anunciar um amor imune
Teu submundo é um passaporte de ausências acesas
Congelando os versos exóticos de nossas antigas rotas
Nossa poesia não precisa gritar para ser grandiosa
Ela implode e dorme... Quieta e profunda
Já tivemos chaves para abrir beijos e melodias
E todo resto foi espera
Quem compõe a música, hoje tem versos alongados de dor
Éramos dois espaços abertos de colunas e notas intransponíveis.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Divino
















Os versos abrem-se como um rio
Tiram as roupas em movimentos violentos
A vagina enrolada em lençóis e cálices
Melada, promovendo a ejaculação desta estrofe poética
Sêmens entranhados na boca de escritoras fracassadas
Tudo mais é disfarce
Tudo mais é gula navalhando os pecados do corpo
Navalha para submissão sexual
Os santos confiscam o gozo de órgãos apedrejados
Enquanto deuses penetram dentro de meu salão
Galopes misericordiosos trepando com o tempo divino
A oração do criador é orgasmo múltiplo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Procurando Teu Choro

Teu abraço
Tapete mágico
Um começo e nossa poeira
A cabeça dança procurando teu choro

As palavras descobriram minha tolice muda e esgoto assim todos os meus versos pálidos gritando mais um poema.
Teus olhos molhados contando nossos segredos enfurecidos e eu calada, debruçada na estupidez de meu desdém.
Esbarrei em tuas mãos apertando minha falta de mapas. Desenhei no escuro teu retrato parado. Um pouco mais e este quase vazio confessaria estar também morrendo.
Diante de nossa realidade, apelei para o desespero dos covardes, alimentei minha doença na ambigüidade do medo.
E era enquanto eu suava frio que tua mágoa crescia feito chaga em minha pele. Por isso, marco as passagens das tuas chagas com longos pedidos de desculpa.
Teu perdão desequilibra em minha poesia e pesa no desconforto de minha vaidade.
E tudo que sei é que tua presença leva algo de mim que não sei, é como se cada ato repentino tomasse a memória de tudo que houvesse outrora em mim.

Em plena fração
Tua voz serena
Em meiga forma
E eu preciso
Das tuas farpas
Que sangram
No canto da minha boca

Um dia, nossos olhos como coisa viva fecharão sob o caos deste soluço mais grave e não será mais possível sentar em colo indeciso. Ninguém poderá prender nosso pulso latejante.Não há desespero em nossas faíscas caladas.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sobre o Sujo e o Mal Lavado

Inventaria uma condição
Em que eu pudesse
Limpar tua sujeira
Esvaziar os copos

Vasculhando teus escombros
Feito uma serviçal
Recuperando este nojo
Que vibra e lateja

Trocando tua roupa
Lavando a última ruga
Claustrófobica em bolos azedos
Em vícios asmáticos

Andando nos limites
Desta poesia barata
E tu me ofereces
Os arames e farpas

E diz-me dos teoremas
De uma serviçal ingrata
Existia uma corrupção
Em cada órgão do teu corpo

Das janelas do teu quarto
Abafado e viscoso
Respirei no trânsito das paredes
E nem nossa sede construiu.
(Poema feito para o blog: http://ilusionistasdoverbo.blogspot.com/ )

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Morte é o conto mais perverso
Algum motivo e o senhor do tempo enxugando sob o ar
Aguando as plantas em calçadas funerárias
E todos os homens saberiam das cinzas de um luto absurdo
Enquanto isso, um cheiro mórbido sem destino
Um vazio em dores abertas
Morte costurada a própria pele
Um corpo esquecido dando verso à infelicidade
Ali, vivia a foto apagada da mulher da década de 30
E a bandeja do homem tímido de sorriso único
Cá dentro da alma, a pausa forçada da memória
A espera de tinta que desaparece dentro dos cílios-tempo
Um suco-sangue escorrendo nos livros da criança de colo
Navalhando as intenções das feridas limpas
Aguardam os que partiram com cabelos calmos
O que ainda inibe está miséria-vida de fazer da eternidade seu enredo?
Talvez, qualquer tipo de pobreza que faça da imortalidade vaso morto
Um ninar sombrio despejando sob pescoços o tempo findado que Deus avisa
E a morte faz de suas janelas portas revoltadas
Em um espaço curto para implodir sons
A carne torna-se fugitiva, os dentes atrofiam e o fôlego de vida se esquiva
Desabamos em uma extinção acelerada
Os olhos, a boca, os braços, o peito acabaram de morrer
Enterramos a sombra universal de todos pensares
Tecemos fio da primeira e última migalha
O sexo morreu
Morreram pulmões e versos
Do pior abismo, um cheiro seco de talo de planta
Uma escama de ar turva e insuficiente
Cabelos brancos e mera desculpa desta morte precipício transgressora
Um abraço morto em eixo ensanguentado
Corpo fechado, procissão sem identidade
Tréguas à Deus para quem morre ao primeiro fio.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A boca














Fizemos esboço do retrato de antigamente
Havia uma ânsia de saber do tempo
Rasgamos a castidade em sedas perfumadas
Cortinadas nestas peles delinquentes
Em tão pouca claridade ainda vi tuas unhas vermelhas
E me prendia em gargalhadas sem destino
Hoje, tão leve em lençóis afoitos
Ali me casaria nua em teus olhos negros
Me casaria com tua boca repousando em cada assunto da minha
Retornaria aos mapas doces da palma da mão direita
E escreveria tudo sobre o cheiro dos teus cabelos floridos
Então, tua música ao norte percorreria todos os meus caminhos
Em dobras de beijos amigos-irmãos
A entrega de tempo que nunca foi meu
A boca amiga guardada em uma caixa
A boca espera
E a boca sangra.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Das conversas de um puteiro

O abraço, a entrega, o gosto e as bocas cansadas...
Cabelos agitados no itinerário de um verso emocionado
Nossas línguas na tua cama e a manhã que agora boceja
Nossas poesias fechadas e minhas pernas abertas
Nunca vi um homem de feridas encaixadas sob medida
E ali, cada pedaço da tua miséria segurava minhas linhas
Ele agoniza e ela quer gozar
Uma noite, com todos acesos, danças e alucinógenos festeiros
Um beijo degustando os versos pelo sexo
Acordei sincronizada ao tempo estático
Um começo onde cada boca dormia calma...
Vou ao teu encontro em novo excesso
É tempo de abrir as carnes que dançam com nossos orgasmos.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O desgraçado e os miseráveis















Sou um irmão amputado jogado no lixo
Recebi o leite do peito seco
O alívio vem de qualquer sobra

Sou fruto da sacanagem de um santo ausente
De um governo estuprado e um Deus mentiroso
Nos bolsos nada além de um cigarro pela metade

Sou um resto de medo e fome que ainda se contorce
Tenho estes dois braços que definham e só acreditam no céu da boca
Minha morada é no asfalto onde o cheiro fétido me bebe de gole em gole

O corpo olha pra dentro, depara-se com a palma das mãos
E lembra em sopros cuidadosos dos potes cheios, das grandes construções...
As mãos surradas pedem a paz merecida

Um resto da canha ainda o mantém embriagado na tentativa de misericórdia própria
Um desespero e a tontura que momentaneamente engana a fome
Um gosto amargo de se passar despercebido

Um nada em extremos partidos
Uma carcaça apagada em projeção faminta
Instrumento de culpas próprias e alheias

Imperceptível, ignorado, desfalecendo pelas mãos que agora sangram...
Sou um desprezo humano sem juiz, sem deus, sem irmãos
E quanto a eles, parecem padecer de uma embriaguez oportunista
Com seus olhos sempre arredios e um fingimento calculado

E quanto a mim, concordarei em ser o corrosivo da calçada em que passam
E o adubo do asfalto onde correm
E em alguns momentos entendo tudo...
É preciso desgraçados como eu para enxergar que os miseráveis são eles.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Arte Marginal














Escrevo aos enforcados como se dispensasse meu próprio desespero. Fantasiando sobre um cristo o acontecimento de minha própria humanidade. E quando escrevo sinto que falta sempre mais um pouco, como se as letras tivessem um aroma dizimal que cospe na extensão de meus pés.
Minha falta de moral é a que tece todas as frases e, dali de cima, aquela impressão de ter sempre todos os espaços abertos. E quando dessa vida lá fora, cheia de coisas reais e sem matéria qualquer linha se diz poesia, é que mantenho meus olhos fechados como se nunca pudesse parar de correr em direção à mesma presença solta.

E quando declamo nas ruas feito marginal é porque quero abanar todos os farelos até não restar nada. Aumentando nessas mesmas praças minha família de irmãos artistas, um círculo vicioso que viabiliza o renascimento da poesia.
E ali, dançamos em ciranda para escrever com os pés e fazer teatro com as mãos.
Assim, a arte inunda as ruas, devora seus portadores num samba alucinado com direito a artistas avessos a toda forma de domesticação. Sem uniformes, sem patrocínios e sem nenhuma vergonha de fazer da poesia a pátria a que se ama.

sábado, 14 de novembro de 2009

Fluoxetina com Café

















Sete amigos caras de pau e banidos da panelinha literária de nosso ingrato país se reúnem para compor as mais variadas abobrinhas alucinógenas.
Sem vergonha, sem regras e sem noção nenhuma.
Um time de peso e com o colesterol nas alturas.

Todos os domingos estarei fazendo o meu cafezinho com fluoxetina por lá também.

Em breve estaremos recebendo autores convidados que já participam como comentaristas de nosso blog.

http://fluoxetinacomcafe.blogspot.com/

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Os Ilusionistas do Verbo
















O "Ilusionistas" nasce da junção de sete escritores que não sabem o que sabem. Um blog cru,sem cortes,nada liso e audacioso em ser livre. Nada além do esboço e da desculpa para se fazer prosa e poesia.
Um desencontro achado, real e ilusório em diferentes estilos para se brincar de mentir sobre a verdade.
Crônicas recém saídas das esquinas, contos de uma escuridão matinal e poesias de tiro na claridade. Cotidiano e fantasia, inventando muito, pouco e quase nada. Literatura sem culpa.

Embriague-se com nossos poemas ou degole nossos textos. Faça o que fizer, o verbo é seu.

Veja o nosso blog em:
http://ilusionistasdoverbo.blogspot.com/

sábado, 7 de novembro de 2009

Poesia de um Lobato alucinado

















Procurei uma droguinha
Nem fósforos ou palha no quarto
E tudo tão molhado que nem fumo acenderia meu barato
O vento embriagado da janela trazia o cheiro de pólvora
A brisa quente explodia doce no olfato
As narinas alucinadas e eufóricas
Tomaram as formas de oito carreiras de um pó domesticado
Mãos tateavam o vento em êxtase carnal
Tomei todo o fôlego e o carrossel fez seu percurso
Um coral enfurecido nos tímpanos
Revolução sintética entorpecendo o abajur
Cores cintilavam um azul trancado de vermelho
Oito vozes fluíam um medo faminto de pastores do trigo
Paredes empretecidas conversavam com meu gato
Espanto asmático ouvir o felino responder
Tremiam oito móveis e a cabeça flutuava na TV desligada
Oito segundos para se ter oito anos enquanto assistia a saga de Lobato
No varal, vovó Benta pendurava meus discos de vinil
Na vitrola velha tocavam as roupas puídas
Pedi a Emília que me acendesse um incenso de canela
Canela me faz querer dormir um sono quieto
Cochilei por oito dias com Visconde de Sabugosa fumando meu baseado.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Lágrima Decadente

Por entre sertões, descobriu a lágrima mais humana brotando uma espécie de nostalgia.Apenas o arrepio por cima do telhado em direção a queda.Escrevia uma insanidade vulgar. As palavras mais bonitas permaneceram nas sarjetas.Umas incoerências perdidas, cheias de vida por fazer. Seco, construindo traços vazios rumo ao caminho de volta.O rancor, sorrateiro invadiu o que havia por baixo do tapete, arrastando por entre as solas dos pés um ranger acumulado de verdades e promessas.O tanto deixou de ser o bastante diante da ilimitada fluidez de todas as outras existências.Vaguei no alívio de um grito. E este corpo antigo produziu uma decadente distancia entre o vazio e a lágrima que pesa.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Com a língua

Me beija os seios como quem trava o último suspiro
Me toca como se eu fosse teu instrumento de cordas
Me lambe como se eu pudesse matar tua sede
Me invade como proprietário carnal

Me beija enquanto me toca para que eu faça música em você
Me lambe antes de me invadir para que eu te devore como cortesã.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Humificação

Entubo minhas indagações
Domesticado-leva a boca
Pago minhas doenças
Célula por célula
O corpo faz das veias proles impacientes
No leito húmus há todo espaço para boca
E a boca sorri
Oscilação do batom e precipício.

Poemeto de um mero ator

No corpo e no copo
A culpa é do perfume que está dentro de cada manhã
Benze o arrepio desta tua boca tão minha
A cena queima e um dia some
E eu mergulhado nesta falta de sonatas.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nos escombros















Poltronas imaginárias vendidas há tempos
Uma casa no mundo inteiro
Quintal povoado de coqueiros gastos
A paisagem movimentada por ventos e relógios
E o vento violento forrava precoce em corrente inversa
Espalhando uma larica para boca seca
Da boca, uma bacia quente de Janis Joplin
E eram dos escombros que ela jogava cartas e instrumentos
Já não havia mais casas ou nomes completos
Construí uma chuva para me adoecer
E ela dormiu em mim quando não sabia o que fazer das mãos
Decorei as paredes com bulas e um tapete de um vazio trôpego
Ali fui trancada em escavações patéticas
Amarrei o corpo envergonhado esperando abolição
O corpo padecia da fome de não querer mais alimento
O ventre infestado de órfãos indigentes e soterrados
Meus filhos repousavam em prece a substância orgânica de meus espasmos
Cruzei meus pêlos sujos em atmosferas suspensas pedindo para recolonizar
A casa queria guerra, e da casa só restou o pó, separado em carreiras para que eu nunca me sinta só
Poção mágica em partículas refinadas e espalhadas neste caos surdo.

domingo, 25 de outubro de 2009

Movimento "Poesia Viva"




Brindo o novo movimento poético que nasce nas ruas cariocas.








Nosso imaginário poético cruzando avenidas
Somos poesias vivas cambaleando pela cidade
Reunidos, dispersos e nos sorrisos a manifestação de cada estrofe
Um Rio antigo para nossa euforia temporária
O gosto quente dos poetas explode na boca
Uma embriaguez que salta da língua
Festejando a poesia que vive em nossos pés
Saudosas e sedentas em cada ladeira carioca
Espalhados,desatinados fazendo das folhas estadia
Marginais habitando em palavras
Poetas transgressores que se mantém na mesma linha
Oscilações e fúria criativa entranhada no corpo
Apertados e sem cabimento para esconder a nova poesia
Porque os poetas estão acesos e ambulantes na rota de cada chão
Ampliamos a cena de um novo carnaval
Delírio de uma poesia que vive.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Carne e caos













Páginas improváveis do ventre e linhas
Pode ser o corpo marcado e saliva gelada
Pode ser o cheiro da boca e da ferida
Pode ser o seio quente e o tom da tua língua pra absorver

Imagem da folha e tesão
Pode ser sede embriagada e teu sono ereto
Pode ser a vagina infame e a carne lubrificada
Pode ser desejo e a vontade de gozar

Pode ser agora como numa morada desinventada
Quando a poesia deságua e avisa:
Meu corpo é sala sem hipocrisia.

O Sexo













O sexo perverso
O sexo nostálgico
O sexo travesso
Sexo satânico e sexo cristão

Sexo devasso
Sexo perdido
Sexo covarde
O sexo piada e poesia.

O Cristo Magro















Esta falta de crença é voraz
É aquela fé covarde que desaparece e voa
É um imaginário desarmado
É explosão precoce escorrendo na bíblia corrosiva
Cortinas absurdas cospem o medo barato
A cruz do Cristo magro é imóvel
Esta oração morna é reza afogada.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Santa fêmea















E na rapidez do ódio, Maria entra na valsa
Santa Maria desligada na televisão
Overdose de água benta
A virgindade de Maria salta dos olhos
Tem passos curtos, rasteiros, mas o sal dos olhos a fazem querer gozar
Santa Maria, desnuda da água imunda!
Santa Maria mãe de Deus: a hóstia tem uma mágoa dissimulada
Jamais lubrifique minhas pálpebras
Dona do feto sem choro és tu Santa Senhora
E do que nasceu, não era teu
Sua dor era a ânsia do descaminho
Rasgar a cólera nos corpos dos outros
Divina ciência, sem preces ou deuses
Procissão maquiada de uma fêmea
Nos seios de Maria o profano
Esconde no véu cada orgasmo ateu
Manteve em sussurros o sagrado gosto de outros mundos.

domingo, 18 de outubro de 2009

Chaga Acesa

Se esforça a luz
Sondando um pedaço do espelho
O brilho é invisível
A cada despedida permanecemos livres
Ninguém nos tira a chave das linhas
Um circo literário para desafiar raízes
E num lance mágico a poesia é limitada
Uma frustração que se instala nos papéis poéticos
Ainda assim, acredita o verso ser descarado
Perfurando em suas mais variadas formas
Manifesto, faminto e diversificado
E não há arte sem ousadia
Arte deve ser tomada pelo fogo soprando pra fora o que procriamos com sorrisos
Se viver arte fosse catar a dedo quadros, morreriam de tédio todos os poetas
Arte não tem extremos, não é forjada
O espelho do outro não pode ser negado, repartido ou trocado
Antes, generosa e sábia arte abre espaços na medida de cada um
O grande poeta é por isso, um grande indisciplinado
Sabe partilhar como ninguém de toda arte coagida
E a melhor poesia de um artista é a que consegue rir antes do adeus
Traduz em gargalhadas a fúria estimulada por novos pedaços luminosos
Renovando nas vísceras a verdadeira arte: a ambulante
Arte é chaga acesa.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O Instante
















Final da linha e tua aula em mim
Lembro de cada partícula literária
Tua chegada foi por grandes escadas
Correndo dos esconderijos inspiradores
Nas poesias tua grande morada
Paredes e decorações vermelhas
Amanhecidas em nossos deslizes atemporais
Girava presa a culpa dos outros sangrando em nós nossa demora
Desisto e apago de vez para segurar tuas linhas
Os fios dos braços arrastados pelo caminho desviam nossas rotas
Descobri que todo esforço era o de escrever a margem nossos laços
E nos pedaços menores descubro em você o instante de ser feliz.

Victor


















Éramos formas encardidas de ser
Agonizando nossa loucura escancarada
E foi te ouvindo cantar que fiz da tua voz memórias e livros
Criei dentro dos tímpanos a saudade de nossos versos frescos
Sempre e antigamente descontrolávamos o próprio caos
E fazíamos festa em nossas garagens como se fossem ginásios lotados
Aos sábados as bocas esperavam por nossas bebedeiras
A dor e a fome eram sintetizadas na vontade de cantar a noite inteira
Dormíamos ao som de Janis só para acordar com Elis
Havia pedras em nossos poros
E com todas elas criávamos nossas próprias estátuas
Martelos, espátulas e sorrisos
Criadores e criaturas desenhavam e cantavam novos tempos
Fervia arte na tela de nosso grupo inseparável
E a amizade ali, por vezes mal absorvida aos que nos viam...
Guardamos entre músicas e abraços cantigas que ainda nos embalam
E descobrimos juntos como lidar com mudanças e a plenitude guardada em nossa caixa
Nossas mãos em potes cheios querem acenar pra tua voz e meu poema
Nossa saudade compreende uma viagem que ainda não foi inventada
Naquela gaveta branca escondi nossas lembranças escandalosas
Encontrei tuas cartas, teus desenhos e aquele teu quadro feito pra mim
Veio junto e entranhado teu sorriso, nossos pulos na rua a cada reencontro
Meus braços ficaram curtos e meu papel mudou a cor
E veio junto um sorriso da poesia que nunca foi minha...
Aqui, ela pertence a nós.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Letra Mais Próxima



















Existem poesias doentias
Emanando fluídos dos corpos fétidos dos poetas
Os ossos mastigados com a estrofe que corta
Não há flores ou paixões desinibidas
Apenas unhas encravadas em detalhes sórdidos

Sua morte é a letra mais próxima do verso
E nada derrota este pedaço firme de verbo

Encontram-se na intenção mórbida de cada piada
Desenrolam-se em cada degrau
Engolindo adubos evoluídos demais para qualquer poeta vendido
O melhor de cada cor é colorir a própria identidade
E ainda assim, em cada passo incerto o que habita é a palavra.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Música e Poesia
















Em Parceria com Roberto Camilo.


Há em tua companhia uma poesia errante e transgressora
Teus versos incorporam agitando em suas formas o sangue de toda pele
O formato do teu corpo escreve a cada linha sua posse
Traz perdidas as palavras antecipando suas raízes

Há em tua companhia uma música que corre dentro desta cena
Tua música percorre a casa e veias como se adivinhasse nossa presença
As notas juntas silenciam as notas de outros tempos
Corre de leve e viva, apenas concentrada nos pianos

Dentro das estrofes voamos nas ruas de cores
As letras de tuas rotas peregrinam no misto de sorriso e esta ferida que suponho em tuas mãos
Porque ninguém poderá fazer poesia sem lágrima, renúncia e angústia

Dentro dos teus tons havia incoporado o dinamismo da vida
A consciencia da tua voz latejava em meus ouvidos misto de tempo, rosto e corredor
Encontro canções profundas, perdidas em desejos fundamentais assim como qualquer poesia
Porque ninguém poderá fazer música sem pecados, lembranças e paixões

E tua poesia vai caminhando como quem corre dentro de si mesma
Locomovendo farpas, fogo e a fragilidade escondida

E esta tua música vai proclamando como quem atinge os ouvidos com luz
Procurando libído, água e a permanência incompreendida.

Ela é poesia e loucuras

Ele é música e liberdade.

domingo, 4 de outubro de 2009

Camuflados


















Repara o sol dos pés
Eles forram como fantoches soltos
Imobilizam o medo como heróis camuflados
Pedem perdão no desespero dos passos
Nasce a disputa entre voltar pra onde se quer e travar novas moradas
Pisam na casa de um vazio temporário
Ficam tontos
Padecem de uma embriaguez barata
Cospem até a boca a virgindade de outros caminhos
Impregnava uma saudade esquecida e perigosa
E nos pés envergonhados os mais variados tremores
Descobriram a vontade trancada de se reinventar antigos caminhos
Rápidos, adoecidos e pisando nas tuas folhas.

Transe


E na última cena, personagens jogados ao chão...
Depois, filosofia para um corpo que não quer mais descansar
As mãos em transe e a coreografia embaralhada em dialogo sutil
Quatro vozes nulas de vontade, e a expressão querendo mudar a entonação
Lança manifestos de expectativas à venda
A rota do ator mendiga mentiras emocionais.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Povoado de Versos e Sonhos














A onda apontando
Pra buscar teu colorido
Correntes e laricas de festa
Um quintal lotado de Ipanema
E se hoje é sexta-feira, a boca aguarda o frio na barriga
E o corpo pede música, quer cantar a noite toda
Noite pro papel morder as ruas
É quando as pedras derrubam as imperfeições
E nós violamos o asfalto quente...
A poesia em desespero quer vagar nas horas...
As casas que fotografo são cheias de cor
Vivas e sorrindo umedecidas das águas deste canto entranhado

Hoje tem Rio no meu céu
Brota uma euforia que invade
A cada bairro, um povoado de versos e sonhos
O gosto de chopp que salta da língua
Dedilhando a magia barulhenta da avenida Rio branco
As portas se abrem todas na mesma hora
Através da água, sai o povo pra expiar o vento
Fazemos de nossos pés uma substancia orgânica
Brincando com nossa identidade-samba
Pra saber de longe o certo, que somos mesmo instantaneamente livres
Saímos descarados empalhando nossas buzinas e carros
Pulamos pelas janelas tomados de alegria
Tudo demais já que hoje a intensidade faz sentido.

sábado, 26 de setembro de 2009

Caos Poesia


Quero a poesia pelas pernas sugando todo o bom senso
Desmaiando sobre os versos o caos de cada estrofe
Quero o descontrole das rimas
Quando os membros agonizam palavras encardidas

Quero as regras trocadas
E as mãos ávidas por pincéis e pontes
Quero os braços sóbrios e os dedos implodindo ódio e ócio
Acalmando peles, pêlos e poros

Quero as letras mais absurdas abraçando pedras e serpentes
Engolindo caminhos de pernas sem vida
Quero o suor frio de frases curtas, sem nexo
Desenrolando-se dentro deste ventre livre

Quero a prece imoral da cratera-poesia
Ajoelhando veias, órgãos e raízes adestradas
Quero meus poemas indigentes soterrados em rabiscos febris
Esperando tinta, lentes e corpos

Quero abolição literária psicografada em uma pia antiga
Rejeitando a saliva para descobrir o sabor
Quero cravar poesias sem lei com sopros e poucas cores
As curvas das palavras atravessam este verso com a língua.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Devagar e Silenciosamente


Não poderia voltar atrás
Mas a saudade é aguda
Meu medo ainda é argumentativo
Inibindo outras travessias
E o amor permanece atemporal

Procuro novas estadias
As bocas tem sido secas e sem o calor que busco
A poesia resseca em sua mágoa
Enquanto a minha poesia, o ama como na primeira vez...
A Súplica não se desfaz nem com tempo ou rancor

Acordo com nossos versos entranhados
Sei que não entendes minha fuga
Foste expelido de minhas expectativas
Permanece em meu vício
Esta procissão de espera árdua sobrepõe minhas palavras

A saudade crua faz de meus verbos frágeis
E o amor será o mesmo
Estagnado e pulsante
Sigo teu peito e tuas palavras não ditas
Gostaria de esconder a angústia e mudar a entonação
Mas ainda soa-me estranho procurar a cura para esta febre

Tua poesia ainda tem peso sob minha emoção
Ontem, enquanto o lia, meus versos te abraçaram sem forças
O que fluíam de teus papéis cortavam através de imagens
O passado germina dentro da nostalgia soterrada por nossas provocações
O absurdo de nossas palavras deturpa o que queremos com afinco

Desaprendemos o que de melhor havia nos laços poéticos
Os versos infligidos, e nossas palavras precisam de tréguas...
Rasgo todas as pronúncias em tempos de cólera
Porque não sei declamar você sem grandes proporções de amor
Escrevo o que constato todos os dias em meu espelho aceso:
Ainda o amo, devagar e silenciosamente.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Corrente Suspensa


Ele ama o vento
Tem o cheiro da verdade profana
Confunde meu espaço
Somos língua e dentes
Reconhecemos este verso
Transmitimos nossos pensamentos
Ao som de uma aula qualquer, brindamos em descaramento
Somos um par de poesias de Cordel
Moramos na voz de Roberta Sá e dançamos com Chico
Dois boêmios nascidos ao avesso dos tempos
Nos sorrisos um só compasso
As veias de tua poesia insana dão razão ao meu barato
Ele não tem precedente, nasceu hoje e renasce amanhã
Os braços dados em uma corrente suspensa
Espalhamos nossos pertences desejando apenas o que cabe entre as mãos
Ilusionistas do verbo
Juntos a poesia inflama-se de alegria.

Palco pra Arte


A arte alucina
Cheiro de ânsia universal
Piso com vontade para sentir a temperatura anormal
A arte tem um medo calado e uma claustrofobia excitada
Uma multidão embalando as palavras
Arruaceiros descobrem nela cores e descompassos
Passo dias com a cena mergulhada em mim
Entre platéias e personagens éramos um
O palco agora é misto de anarquismo com alucinógenos febris.

Tire Sua Mágoa de Cima de Mim


Segui teu rumo destro
Um desespero em recanto de angústia
Pensava em teus braços explodindo entre os dedos
Tuas mãos tornaram-se estranhos elementos
Tire sua mágoa de cima de mim

As linhas desaparecem de dentro do peito
Afasto meus olhos para apagar de vez
Cruzo raízes na tentativa de recolonizar outros afetos
Preciso te arrancar de mim enquanto os joelhos choram
Está em meu papel, por vezes me pergunto se realmente sentiu

Constato teu olhar sobre mim como quem aprecia uma farsa
Não calo a voz do corpo sabendo que as palavras me entopem
Sumo de tua incompreensão
As feridas alertam toda figura em mim
Apago poemas, confissões e planos
Deito minhas vontades zerando todo o passado.

domingo, 13 de setembro de 2009

Renasce a Poesia


















Teci a noite em seus olhos
Arrepios e beijos familiares de um gosto que nunca muda
Um iminente reencontro de bocas e mãos
Lembramos o carinho desmaiando sob a cama
Lençóis quentes e posições estreitas
Nem o tempo desmancha estes sinais escancarados

Rastro de desejos achados
Teus braços sóbrios e tuas pernas fixas como em ensinamento
Teu cheiro absorvido em meus novos versos
Meu mago terno sempre aqui e ali
Ninando e me levando pra perto
Minha natureza agora é teu colo

Teu nome na palma da mão trouxe nova esperança
Nosso perdão foi mútuo
Esta noite durmo em você enquanto você desperta em mim
Enamoro tua chegada com a serenidade de outrora
E a poesia renasce de um evento inesperado
Nosso instante foi supremo

Participei de suores precipitados e você aqui do meu lado
O café guardado entre as gavetas e o passado
O amor trancado e faminto
O amor está livre
Reinvento teus olhos pra perto
Invoco, danço

Atravesso as atmosferas adormecidas
Meus pés choram quem quase perdi
Minha fome busca a tua
Quando inquieta, tu me acalmas
Escuto em teu peito o traçar de novas expectativas
Nosso amor levanta-se como prece.

A Cada Hora

















Suja, enquanto humana
Um desgaste sólido
Pede pra acender meu corpo
A paixão definha a cada hora traçada
Ela já não sabe lidar com esta ausência física
Guarda dentro daquela caixa construções maiores
Tento tranquilizar mãos e pêlos

Um dia, planejei habitar em nós
A voz projetou uma vontade virtual perigosa
Tua saliva não descobria minha boca
Ainda não inventaram volta para nós
Borramos tudo que escrevemos
Agora, as mãos só pedem aos dois uma paz merecida.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Rigor Mortis


















Morte em vida já o era
Infeliz partida solitária
Da casa velha de móveis avermelhados
Ausentou-se de si a pequenina
Covarde é não partir pra ver como é...
Foi-se sem deixar recomendações
Decompôs sua essência perturbada
Decompôs seu corpo jovial

Descompasso e abandono daquele que fez-se ternura
Tomaram dois minutos talvez, latejar de todo pensar conquistado
Cessa ar, fôlego da vida
Partem células
Caminha o sangue, somos todos brancos
Rigor mortis de sua antiga fortaleza
Algor mortis de seu falecido desejo
Exala final, expele descomeço
Gusanos aliados de tua ausência
Abandono de teus cabelos loiros
Arranca esses olhos cinzas
Sugam a pele branca
Banquete da antiga fartura

Não a acolheram anjos
Não a importunaram demônios
Era maracatu do Seol
Era o nada inexistencial
Completo vazio a preencher o silêncio

Parto de partidas suicidas
Era rua Mem de Sá 380
Coagiram a morte em goles
Masturbou toda putrefação
As pálpebras cerradas frustram expectativas
Amparou-se frente a despedida cotidiana
Enterrou mágoas
Ressurgiu recomeço
Feto de novo ciclo
Da próxima vez serei outra.

Rio Duas Vias


Três bondinhos por sua Tereza
Posto que nove seja a menina que vem e que passa...
Nem só de Leblon vive a Lapa

Terra-província
Mar que se aterrou
Largo da Carioca que vende arte
Centro-Avenida
Avenida do Rio Branco...
Rio canto,
E se canta é samba
E samba é no morro
Se é morro, tem que ser Estácio
Estácio mira braços Redentor
Estende mãos Guanabara
Pra Guanabara, há quem diga que no Rio não tem Bahia
Há de ter Ilha Grande, tamanha Angra que estoure fenda do saco do céu
Há de ter travessura suburbana nas vilas e casas
Romper Janeiro na copa de um mar

Pra ser Laranjeiras, inegável planta-lá de pé
Rio duas vias
Nascente ao mar.

Pauper

















Daquela casa ouvia-se apenas os gritos
De um medo que sempre penetra
Entregam pois, as folhas abertas despidas de esperança
E gemem os pratos suspensos de nada colorido
Assim celebram-se as manhãs
De mãos rasgando a nudez de corpos magros
Recolhendo a surpresa da fome por ossos

Ainda não aprenderam a morder a língua e gritar pra dentro
Errei ao dar luz crias
Perpetuando sementes minguadas
Deixo o cansaço os criar

Sobre tijolos em falso
Nos basta não ter
De línguas e dentes cultivam miséria
Rezam os grandes nos próprios umbigos
Ninando a distancia que pesa

Com os pequeninos
A noite apaga o branco
Puxo destas verdades incoerentes
Faço aliança a impotencia

Da tua lágrima se enxerga o mundo.

Renúncia

















Pertenço ao ventre órfão da saudade
Apenas observo a queda
Angustio curvas da consciente agonia
Alivio acenos e sussurros
Este chão encarde as percepções
Neste chão perambulo meu ócio
Sinto falta do concreto absurdo
Guardo-me íntegro feto do ventre só

Renuncie a negatividade da posse?

Optar tecer folhas nos olhos alheios
Se pensar ausência de outros,
Lhe diria estar pintando novas espécies
Daí rompendo as certezas
Severo em atitudes
A intuição distante:

A solidão explica os versos.