quarta-feira, 29 de maio de 2013
Minhas favoritas, amarelas e com cheiro de versos guardados na última gaveta com tanto carinho. Fico. Tua presença ainda me causa o mesmo emaranhado de anos passados. Você aprendeu a escrever e minha poesia só sabe do encantamento que tua fala evoca. Estou tão dispersa, nem sei denominar este novo tempo. Do que sei, gosto mais de filosofia do que nunca... Mais de dias da semana e de café com Neruda.
terça-feira, 28 de maio de 2013
Volto a ser menina.Estudante aplicada em tuas frações.Passo a gostar mais de terças. Gosto cada dia mais das sete horas, do cheiro de perfume amadeirado e de Sartre. Gosto mais de Paulinho da Viola e Luiz Melodia. Gosto mais da chuva e da temperatura do outono carioca. Esqueço a poesia, danço com crônica.
Tua mão em minha folha. Escrevo em você.Último olhar.
(Nossas mentiras fingindo acreditar)
Outro verso. Outro lugar.
Velhos demais e o novo explodindo
no canto da boca (o canto dessa tua)
Vício.Vício.[Cio]
Tuas sondas em minha expressão corporal
(Qual o nome dessa doença?)
Na tela o aviso: Mais e mais de você expandindo
Sodoma e Gomorra virtual.
Último dia. Burlo os ponteiros,
você arranca o relógio do pulso.
Cor(rompemos).
(Nossas mentiras fingindo acreditar)
Outro verso. Outro lugar.
Velhos demais e o novo explodindo
no canto da boca (o canto dessa tua)
Vício.Vício.[Cio]
Tuas sondas em minha expressão corporal
(Qual o nome dessa doença?)
Na tela o aviso: Mais e mais de você expandindo
Sodoma e Gomorra virtual.
Último dia. Burlo os ponteiros,
você arranca o relógio do pulso.
Cor(rompemos).
domingo, 26 de maio de 2013
Dueto com: Paulo Alonso
Brisa
Um tom maduro
Na candura, avisa
Que a idade quis a
Altura da queda
Do muro
...
Sopro
Cores em sépia
Tuas folhas caindo
De março a junho
Jacarandá desfalecendo no grito,
Absurdo botânico no meio do quintal
...
Vendaval
qual carrega as folhas
ex-verdes da estação passada.
Deixadas pelos galhos,
mas agora colhem frutos
mais astutos
após o carnaval
...
Serpentinas deitadas sob o amarelo das folhas.
Dos seios das árvores de tua estação,
Escorrem atmosferas elétricas.
Temperatura mística, polens nos túmulos,
Outono grávido de raízes e flores secas.
...
Era festa
Que morre em vida
São as cores mais decaídas
Em direção às cinzas (do frio) do inverno
Esta gravidez de plenas colheitas
fecunda pela fértil brisa
Tornam este Outono,
Materno.
O problema nunca foi a culpa, nem as desculpas. A fonte de
toda inanição sempre foi o exílio. A
fome do outro no outro. Os copos cheios enquanto a saudade esvazia o peito.
Esse pequeno cercado que compõe os limites que me impuseram. O problema nunca foi
teu afago, tua aproximação. Já não existem territórios ou passeatas, apenas um
tremor que começa na ponta dos dedos do pé esquerdo e percorre até os
cabelinhos soltos da nuca. Tua ausência foi por minha escolha, e tua presença
tem-se feito em desorientado memorial do que ficou por vir. Insisto. O problema
foi quando comecei um poema torto que se curva diante dos seus grandes olhos de
menina. Foi quando prendi tuas mãos nas minhas e não soube decodificar os sons
de aviso. (- Muito cuidado... Poesia não se embrulha em papel riscado).
Daí, um dia, me vem solta na pedra a resolução hermética do sistema:
Tirar das compotas porções generosas de nós e entregar nos braços de um frade, um
padre, um carteiro que abençoe nossas vontades enclausuradas dentro de uma
fábrica de tecidos. Separo dois metros de seda, envolvo nos teus seios e
cintura. Guardo um pouco para que teus dedos sintam a paz de meu afeto.
(Um dia, ela me pediu que lhe prometesse algo. Tua dúvida e
meu silencio. Guardo todas as promessas numa caixa rasa, camuflada de poemas e
algodão fresco).
Aquieta tua imaturidade Cecília, amor não acaba nas frestas
de um dia, ainda que o dia amanheça nos lençóis de algum outro. Teu amor me
prende sem nenhum fio, sem que exista pavor. Teu amor me veio no súbito de um
delito, mas permanece intacto nos vãos de cada dia.
“Amor de reza baixinha... Que é pra correr tudo bem... “
Memória fraca e ainda assim, todos os motivos para ficar,
decorados com devoção e paciência. Sossega esse medo que salta por trás do teu
ombro, não haverá desistência. Amor maduro perdura nas dobras do alvoroço que
do lado de cá, passo.
“Construí uma estufa azul no meio do quintal.”
Sobre Cecília no pedaço azul da vista:
Te amo encarnada de prosa poética sem você nunca ter
aprendido a escrever um só verso. Ainda amo, vestida do castanho que cintila no
teu olho e do mesmo tom que embrulha de graça teus cachinhos. A tua força nas
ruas, engajamento libertário da tua juventude que lateja dentro da flor. Amo
tua melodia que inaugura meus ouvidos de encantamento a todo o momento. Amo o que emana dos teus conflitos, tua
doçura na fragilidade de um arsenal de guerra. Teus paradoxos de pequenina
esbarrando e curando meus paradigmas envelhecidos. Amo teus trejeitos tímidos em
meus pedaços já tão embrutecidos pelo desgaste. Teu amor remoça minha crença em
poesias mais vibrantes.
“Cecília: enredo de cura.”
Por fim, apenas o nosso começo no final da folha.
Da tua barba o cheiro de uma saudade camuflada em minhas
pequenas argumentações. O cheiro antigo de um mago terno. Escrevo um “C” nas minhas
coxas, você o vem buscar.
É teu, de tuas mãos, ordem e posse. (Pega.)
Desabotoado de calendários, os botões estiram-se no chão, os
botões partem-se feito fruta de temporada, alongam-se em nossas costas
arranhadas de sal. Teu líquido marítimo deságua em meus pequenos beijos, e a
saliva temperando de veneno as línguas desavisadas.
Minhas gavetas desmembrando o que enterramos nas folhas
enquanto os corpos confundem-se nas ondas do Guandu.
Meu mago terno me pede um poema, escrevo em minha nuca todas
as linhas.
...
(O poema está em tuas mãos.Pega.)
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Carta para Maria/Sofia
Nunca imaginei que casamento fosse tão devastador, como
aquele pó mágico que cai da aliança, feito neve, por cima de toda cama,
congelando membros e todo resquício de ternura. Um dia, todos os sonhos do
mundo, noutro, transformação. Não havendo vítimas ou vilões, apenas a sensação
adormecida do que tuas mãos me causaram. Mãos que alimentaram dias grandiosos e
hoje perpetuam o caos. Nossas prisões vencidas perdem o frescor de revolução. (E eu te peço, me deixe ir.)
Tantas vezes te fiz Maria, e te quis inserida em meu futuro
com a fé inabalável de que seríamos o sempre e “incondicionais”.
Minha vida inteira desordenada no controle de teu ciúme e a
fé diluída nos frascos da tua estupidez.
Vestido para mim, véu para você,alianças, nossa casinha, nosso sim mútuo e a entrega...
Aquele dia em que às seis e meia da manhã te recebi ainda meio
sonolenta, com a notícia de que você vinha pra ficar. Minha vontade tombada no desejo
de que fosse realmente assim... Meu mundo alcançando teu enigma de paixão. Noutro,
os primeiros planos concretizados em nosso singelo cotidiano. Você de bermuda e
candura circulando por todos os cômodos, eu, protegendo teus temores com
poesia.
Nossa casinha: tijolo por tijolo, fruto de melodia. Tantas
indagações e o amor fragmentando em nosso espaço. Tua frieza, meu afastamento, e
meu desvio:(Assumo ter alimentado antes de tudo teu pavor enfurecido) o fim de todas as coisas em nós.
Não legitimo tua, ou minha culpa, erramos juntas. Pago
diariamente meus pecados com tua fúria. Já não conheço teus olhos. Tenho medo
que me peça pra ficar. Tenho medo do que você se tornou...(Por isso, me deixe ir.)
Amar nunca foi com um cordão umbilical ou posses, amar é inaugurar
o outro de afeto todos os dias. Amar é o frio na barriga que um dia você também
já sentiu ao ver que o outro se aproxima, aquelas borboletas todas voando nos
devaneios da tua cabeça noite adentro, só de imaginar o outro tão bonito
dormindo.Amar é perder a conta das vezes que já se viu ao lado da outra pessoa, e de quantas vezes a poesia ou canção pareceu tão mais convincente diante daquela emoção tão particular. Dá vontade de assinar a autoria de todas as músicas de Buarque, roubar descaradamente suas composições e dedicá-las ao que sente. Ceder à xícara de café, ceder à vez, ceder à razão. E quanto tempo
tem desde a última vez? Cortesia, carinho sem propósito de sexo, a delicadeza e
o romantismo que fizeram eu me apaixonar? Perdidos nas frestas do teu ego e mágoa! (Preciso ir.)
Empatia: Tuas cordas no meu pescoço Sofia. Você esqueceu a
grande lacuna entre apoiar e me sufocar. Amar é aquela coisa chamada: deixar ir...
Lembra?
Amar é aquilo que fazíamos deitadas no chão do quarto, com
guarda-chuva em punho porque o teto tinha goteira, ou quando perdi meu avô e
sua coragem me resgatou de tanta tristeza, daquela vez em que confiamos os
segredos de nossas vidas tão doídas uma a outra e desabamos de chorar por
alívio, ver na outra a certeza de companheirismo e amizade permanente. E, você
sempre será a pessoa que conhece meus sentidos mais a fundo, minha grande
companheira, minha melhor amiga.(Você sabe que tenho que ir.)
Então, abrimos mão do beijo, sexo no sexo, mas, o que é isso
diante do amor que sempre teremos? Pele com pele é coisa tão pequenina se
comparado com nossas emoções imersas em afeto. Meu amor é rochedo. “Nunca deixo
de amar quem um dia começo a amar” – Lembra? (Não deixarei de amar nunca, juro.)
Daí, depois de tanto amor, tanta paixão, tanta vontade... Veio
a distância, o medo, a mágoa, a frieza e rancor. Olhar dentro do olho de alguém
que você jura conhecer tão bem e enxergar só vazio.
Respiro fundo, deixo pra trás todo abismo que formamos na
sala, deixo pra trás todos os poemas dedicados um dia a você... Nem Maria ou
Sofia, apenas mulher.
Nosso amor outra vez no ponto de partida, inauguramos a
palavra fraternidade. Zeramos nossos demônios e nos orgulhamos de nossas doces
vitórias.
(Me deixe ir.)
Amo você.
(sueda).
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Dueto com: Almi Junior
Eu vi um sol enorme
Queimar seu nome
No asfalto do centro
Os pneus choravam a sua ilusão
E eram levemente acariciados pelo vento
A sua voz some
Ao entardecer
Eu vejo a sua imagem crescer
Nos poros da cidade
...
Eu vi
um encontro ungido
resfriar teus versos jorrados.
E nas calçadas emudecidas,
dos teus olhos estancados de chuva,
dopar uma saudade amplificada
por tuas mãos desalinhadas...
(teu verso em terra azul gritava
as letras presas na calçada...)
...
Eu caí
num vão
Entre o seu calor em pessoa
Espaço onde a minha frieza voa
Atrás dos seus passos
Perfurando o chão
Seu perfume impregnado nos canteiros
As flores que nascem nos bueiros
Um bar com o seu nome
Você se move na minha corrente sanguínea
Não existe linha reta pro teu caminho
Seu perfume no trajeto incerto
(Seu suor tem sabor de vinho)
...
Traduzo teus contornos com raro brilho
Inundação da tua saliva em meu verso de língua
Descubro então, o calor nas ladeiras de um beijo
Onde tuas partículas enroscam-se em meu satélite.
Teu dragão suspenso em meu desconhecido
Faz mistério nos mergulhos.
Vou-me de barco nas tuas veias apertadas
Orientando-me nos mapas dos teus ossos tomados de corte
A placa do bar grita nua,
Quer projetar asas nas tuas costas.
Nossos restos misturados como pequeninos órfãos,
Movimentam os verbos telepaticamente.
Dueto com: Débora Andrade
Deixei a porta aberta para sentir o outono.
Enquanto assistia pela fresta o pôr do sol, em tons de carmim.
Me preparei para uma beleza serena.
Mas, em vão, meu peito se armou. Era tempestade. Era imensidão.
Teu silêncio devastou minha solidão.
...
Meu silêncio entranha-se na tua porta assinada de sonhos.
Ainda vejo daqui, tuas culpas vencidas em um deus de outono,
Atravesso a dança por baixo da saudade nas tuas saias.
Teu peito armado no emaranhado de laços.
Os pássaros desabando no centro do furacão.
Tua poesia libertando minhas ondas.
...
De palavra em palavra, eu te versei.
Desfiz minhas alianças e abracei o teu mundo.
Me inclui nas tuas terras distantes.
Rimei teus sentimentos e te fiz canção.
Sonda por aqui, sonho de final em vão.
...
De verso em verso, fiz da tua poesia hóstia.
Refiz meu pouso em teu caminho e beijei tua rua.
Te recebi com cartazes e melodia.
Declamei tua saudade e te fiz pintura.
Amanhecem por aqui, borboletas de recomeço terno.
...
Nas mãos. Na alma. Nos olhos. Teus versos, minhas prosas e um, coração no chão...
Nos braços. No peito. Na boca.
Tua canção,tua poesia e dois, minha felicidade triunfante em nosso sonho.
Itinerário do poeta
Todos os dias, falamos e respiramos poesia... Até que, nossos versos grudem nas rodas e nos bancos do ônibus, até que, todos os outros passageiros sejam apenas letras enfeitando um pedaço esquecido de nossos verbos tão alegres. Fico então quieta, imersa no encantamento por suas histórias libertárias do alto de sua meia idade. Tua literatura tem escrito minhas manhãs com doçura. Automóveis viram palco, pontos cegos lendo descaradamente nossos duetos, tua casa nosso cenário...O som metálico da carcaça que nos viaja é tão ensurdecedor quanto nossas vontades.
Nossas mãos esquivam o começo, e nossos olhinhos antes tão deprimidos brilham no castanho da janela; As paisagens das ruas saem correndo com as árvores para ver mais do nosso verso.
A poesia fotografando a miudeza de nossos corpos recolhidos em inspiração. As linhas fazem a ponte, trôpegos, sacudimos as roupas de melodia.
(Ainda escreveremos um livro juntos,nos prometemos então...)
Descemos do ônibus sem bagagens, com o fio de poesia transparente a nos unir. Amanhã, nova parada, nosso delicado espetáculo programado para conduzir nossos rascunhos dentro de nuvens.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Travesseiro de palavras, teu timbre encaixando em minha
vontade mais atenta. Amor esguio, tua falta pesando em meus dedos, teus dedos
soprando meu calor. Tua flor brilhando no escuro, casulo de imagens desfocadas.
Reinvento Cecília no avesso de um delírio, febre aguda, lençóis e enredos.
Aparição sem guerrilhas. Quieta, suavemente brotando na
garganta, amuleto no juízo de um anjo. Amor em vigor, quando nossos moinhos
encontram a paz.
O beijo represado exila-se no rio. Encanto... Cecília é
poesia gerada em ventre de saudade. Nas tuas cantigas a confirmação: Apenas
menina. Tua idade é tua graça e cor, enamoro tua ingenuidade lúdica. Do
Atlântico, cruzamos com o inesperado, nossas balsas flutuam no alívio do afeto,
enfeitando de candura e certeza a corrente que tanto ansiamos. Aquário
transbordando de sonhos, nossas marcas juntas. Sobre ela: Não desejo esbarrar
com a cura... Preciso ainda mais do desatinado. Nosso amor solto inventa
Uni-Versos.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
E eu já não tenho ideia do que fazer com os nós presos,talvez, eu faça mudar a corda,pinte de outras cores e coloque um titulo menos bobo. Ainda que, eu troque a música e escreva o poema de trás pra frente, será o seu corpo imerso nas estrofes. Será a sua boca fazendo coro quando eu abrir a porta, e os teus braços puxando a mesma corda. Daí, eu forço um espirro pra desentranhar teu cheiro do corredor, mas tenho memória poética e olfativa, o cheiro continuaria lá e eu, ainda mais estúpida. Pego um ônibus diferente, mastigo só do lado esquerdo da boca, troco todas as ordens da rotina e ainda assim, sua imagem retém nas mãos todas as cordas. Arranco das tuas mãos, tranço numa rede ou prendo no violão. Dele, som algum.Nada...
Escolho outros livros, vou para o bar. Por baixo da mesa, um nó pequeno roça minhas mãos, o grosseiro tecido que o compõe é cheio de pretextos e todas as doses do mundo de você. Largo o copo, acendo um cigarro e lembro que você odeia que eu fume, apago, simulo um desmaio, prevejo um poema martelar noite adentro na cabeça.
Vou pra casa com o nó em um pulso e a corda no outro, abro a carteira, e teus brincos de pérola cintilam no opaco da noite -vou devolve-los em breve, prometo inutilmente. Em casa, tua voz continua a ressoar mansa, desta vez, mais serena e doce do que nas últimas. Agonia, crio um deus e uma solução falível.
Escrevo uma crônica pra você, os nós desatam a cada linha, a corda vai puindo e a inspiração por hora entra em estado de inanição.
Adormeço. Amanhã, a corda continuará a refazer os nós de saudade.
Ainda será preciso,
desconversar os verbos
com um pouco mais da calma,
soprar devagarinho o que impulsionará
novas rotas,versos recém formados
da placenta de um outro dia
...
Projetar nas calçadas,
portinhas de saída,
submergir com pincéis
mais delicados e,
esperar a poesia
afinar no tempo,
no meio de um feriado
ou no centro do furacão.
domingo, 21 de abril de 2013
Tenho um sono profundo sobre essas coisas soltas da vida que, não tem nada a ver com poesia. Uma preguiça de filas de banco,cartões magnéticos e da moça que me serve o café todas as manhãs. Bom mesmo, seria impregnar a sala de trabalho, o ônibus e todas as repartições públicas com o cheiro de hortelã e versos quentes. No lugar dos ternos, casacas bordadas pelas mãos de Rachel de Queiroz, ao invés de gravatas, cordinhas que puxassem um poema toda vez que a temperatura aumentasse. As filas de banco distribuiriam folhinhas com sonetos, ao invés de senhas, os cartões magnéticos passados nas máquinas alucinógenas, fariam imprimir dúzias de poemetos novíssimos e, a moça do café sorridente, me ofereceria um poema expresso de Adélia Prado ou Ana C.
As mulheres nas maternidades parindo verbos diriam orgulhosas: - Que linda esta minha filha! Se chamará Palavra!
E, ao chegarmos exaustos, inundados de tanto peso nas costas, abriríamos as gavetas dos armários abarrotadas das mãos de todos os poetas,vivos ou não.
E você pode vir buscar isto aqui? É que, tenho medo de me faltarem mãos, sobrarem desculpas e a coisa toda ficar aí, no meio da sala, estrebuchando de tanta graça e poesia. A inspiração dá medo, sabia? Quando a gente olha colada no pé da mesa, aquela estrofe inteira,imponente de tantos eus líricos, que a gente não sabe onde começa o poema e termina a música. Sai pra pegar um café na cozinha, e a cafeteira transborda a xícara de Leminski,abre o jornal de domingo e, todas as páginas são de Hilda Hilst gargalhando uns sons lisérgicos de prosa. Vou pra rua e, todos os passantes sussurram versinhos cantados, aquele friozinho na barriga,borboletando o dia de lirismo. Um poeta a cada esquina e o cotidiano inflando a arte de azul.
Assumo o risco da função, abro o livro do poeta, leio teu amor apertadinho que me sorria no canto da folha.
Levocardia
Teu coração bombeava o que há dias estava impregnado nos pulmões,
risco de vida, pericárdio molhando os travesseiros,
câmaras secretas abrindo-se de versos e cerveja barata,
os ventrículos debochavam dos órgãos que nos sobrevoavam como aves de rapina,
átrios inteiros peregrinavam nos corredores da válvula mitral,
nossos sussurros fazendo eco nas cavas adoentadas.
Manda chamar alguém que tenha as chaves da tua caixa torácica!
Olhem essas artérias! Fininhas de tanto medo!
O sangue contraindo os filetes de perdão, desaprendeu
a fazer ponte para o que já foi oxigenado,
organismo empobrecido de vazio
...
Apenas uma poeirinha debaixo do amargo órgão, alimentando as batidas.
risco de vida, pericárdio molhando os travesseiros,
câmaras secretas abrindo-se de versos e cerveja barata,
os ventrículos debochavam dos órgãos que nos sobrevoavam como aves de rapina,
átrios inteiros peregrinavam nos corredores da válvula mitral,
nossos sussurros fazendo eco nas cavas adoentadas.
Manda chamar alguém que tenha as chaves da tua caixa torácica!
Olhem essas artérias! Fininhas de tanto medo!
O sangue contraindo os filetes de perdão, desaprendeu
a fazer ponte para o que já foi oxigenado,
organismo empobrecido de vazio
...
Apenas uma poeirinha debaixo do amargo órgão, alimentando as batidas.
domingo, 14 de abril de 2013
Sobre Cecília
E você chega, estonteante, coberta das suas miudezas que deixam o verbo mais delicado. O cheirinho adocicado impregnando de calor a sala, de voz mansa, acarinhando minhas células ciliadas. Quando te tenho nos braços, memorizo os próximos poemas que virão. -Não posso perder nenhum detalhe. Cada beijo, um verso anotado, tuas mãos nas minhas e já fiz um haicai,tuas coxas entrelaçadas nas horas que saltam de tanta pressa, e já tenho pronta uma estrofe inteira. Vou dedilhando pequenas possibilidades a cada informação que tua boca fala. (Tua boca não me disse, mas já sei soprar tua nuca só pra te ver reagir de encanto em um punho e vontade no outro).
Minhas mãos perambulando atentamente em cada pedaço de enigma que emana do teu corpo e assim faço a primeira crônica, mais um pouco, beijando teu colo, encostando meus segredos nos teus, quase vejo um soneto caindo dos teus cachinhos, talvez, uma prosa brotando no meio das costas que tuas unhas cravam. Veja bem Cecília, o líquido agora é um poemeto, sem rimas ou métricas, porque amar assim, não nos permite tempo, exige mesmo é reza baixinha, pra correr tudo bem,pra desafogar de mágoa quem está lá fora, e sobrar apenas o que a gente puder declamar no emaranhado das nossas roupas e lençóis. Quando terminamos,já tenho prosa,crônica e poesia, de tanto olhar você, tenho mantimentos suficientes para gerar versos por dias e dias a fio.
...
( E você chega... Cecília).
Acróstico
Impregnado coro,
Libertário e mentolado na xícara flutuante,
Umbigos festejando a poesia viva
Somos todos verbos alucinados!
Intencionando as estrofes com sonoridade,
Organizando as fatias do caótico verso.
Navios ancorados de "insPIRAÇÂO"
Integrando marolinhas poéticas da rotina,
Segregando o acinzentado das telas,
Teimosamente acendendo o barato da arte
Amadores das letras: inveterados!
Somando nossos pedacinhos úmidos de estrofes
Desapropriados de métricas,
Onomatopeias de carne e prosa
Variando os ponteiros do poeta,
Enquanto o domingo engole nossas páginas
Ranger das portas que abrimos para
Buscarmos novas ideias
Oscilando o poema de arte e sonhos.
Libertário e mentolado na xícara flutuante,
Umbigos festejando a poesia viva
Somos todos verbos alucinados!
Intencionando as estrofes com sonoridade,
Organizando as fatias do caótico verso.
Navios ancorados de "insPIRAÇÂO"
Integrando marolinhas poéticas da rotina,
Segregando o acinzentado das telas,
Teimosamente acendendo o barato da arte
Amadores das letras: inveterados!
Somando nossos pedacinhos úmidos de estrofes
Desapropriados de métricas,
Onomatopeias de carne e prosa
Variando os ponteiros do poeta,
Enquanto o domingo engole nossas páginas
Ranger das portas que abrimos para
Buscarmos novas ideias
Oscilando o poema de arte e sonhos.
Esquecemos de seguir,
desprender a língua da garganta,
beber a pinga no gargalo da ferida
("águardendo" nos poros subaquáticos da vida)
...
Você esqueceu o caminho.
No mapa, duas fotos cuidadosamente guardadas na mochila,
tuas rotas envelhecidas de desgaste,
e o sangue pisado nos teus pés magrinhos de medo
dilatavam com a luxação das palavras que pronunciamos.
Era pra ser toda vida Maria,
perdi o verbo para Sofia,
inversão de casas,
volto pra dentro do perdão uterino,
tua mágoa dissecando com crueldade
meus restos soltos pelos cômodos.
Não culpo tua hóstia, nem a cruz.
Aceito, engulo e confesso todos os pronomes,
cada espasmo alcançado nas retinas
até que voltes pra dentro das veias: Maria.
Sobre terremotos, beijos e Cecília
Um abalo sísmico,
quatro mãos tectônicas no caos,
hipocentro de estrofes,
epicentro de beijos no Haiti
Tua areia formando a casa,
castelo de pernas convulsas...
Freio teu relógio,
tua língua avulsa em meu ponteiro de horas
...
Pedaço litosférico do que virá.
domingo, 31 de março de 2013
sábado, 30 de março de 2013
Minhas retinas procurando um pedaço de nós. Minha mão
escavando antigos poemas, telas bordadas, frestas de um amor antigo. O mar caindo
nas tuas montanhas. Eu caindo junto. Nunca doeu tanto saber da tua felicidade.
Nunca foi tão duro saber falar doses de verdade sem propriedade poética alguma.
Falar a verdade sem fazer poesia. Não soube me recuperar com o passar dos anos.
Nunca saberei te arrancar do meu território. A minha e a tua poesia são dois
continentes distantes. Teu peito velado por meus sertões empobrecidos de amar
errado. E está errado, tudo está errado... Nossos lugares ocupados de mágoa e
nós dois envelhecemos tanto... Reviro minhas letras do avesso e o amor
permanece atemporal. Amargando, solidificando, me engolindo até não restar
sentido de poesia sem você. Você não compreende o que nos trouxe até aqui e eu
já não sei organizar as frações que tornaram o que hoje somos. “Ainda amo,
devagar e silenciosamente.”
domingo, 17 de março de 2013
Capturamos relógios nas pernas da semana que se inicia. Somos
abismos que não sabem a condição da queda. Enquanto escrevo vagas letras, você vagarosamente
dilui nossas entrelinhas numa pastilha de Redoxon.
O tempo fecha,
tua retina como
flecha
paralisa o domingo,
meu fôlego transborda
pra dentro,
em cima do muro passa
a lagarta,
mil patas do
imaginário sem nenhuma folha verde
queria ver mais do
desconhecido em meu quintal...
Abacateiro amuado de
tristeza,
canteiro de verduras
já pré-cozidas,
eu preciso saber das
coisas vivas..
Cheiro bom... Qual a
marca do teu pesticida?
Qual nome do teu
escudo anti/pragas?
Beba pelo menos dois
litros diários de formicida, coma uma vez por dia porções generosas de gusanos,
sangre pelas pernas e
ouvidos,
leia sobre aborígenes,viaje
para dentro de um baço,
tenha uma arma
calibre trinta e oito,
calibre teu copo com
pinga e,
pinga teu olho com doses cavalares de mentiras...
Minta sobre Deus,
endeuse um pedaço torto
de natureza,
naturaliza a coisa
toda,
totalize a quantidade
da porra,
porre no começo dum
verbo,
verbalize o coito
interrompido,
interrompa um poeta,
poetize uma lagarta,
“lagartize” uma
poesia,
poeme um abacateiro
amuado,
amue um poema,
no canteiro de
verduras
“Verdurize”um aborígene,
viaje para dentro de
um gusano,
Beba o escudo
anti-pragas e,
ouça pelo sangue das
pernas a condição do dia:
Mulher.
domingo, 3 de março de 2013
Mara lava o rosto. Trovões enfurecidos. Somos três- himens de
ferrugem. Minha mãe é míope, não soube decodificar infância. A matriarca interage
com as bitucas de cigarro. Embaralho o
útero de Mara: nasço do avesso. Seu patrimônio de casas remendadas, Mara é minha
filha- Nossas culpas juntas. Deus cuida da tua pólvora mulher! Agendo tua paz
pra daqui nove meses, quem sabe, teu egoísmo gere milagre. Tua casa e teus demônios
já são outros. Lamento ser tão desgarrada. Manobro em meio a minha origem, tua
barriga me gerou de sete dias, crescerei de novo, no teu ventre ou serei
arrotada numa bebedeira tua. Teus peitos foram confiscados por terroristas e eu
já não pude me alimentar. Teu amor entrevou no caos querida mãe. Teus afetos de
tão mecânicos sobrevoam meu pesar.
Douglas na esfera do umbigo. Pequeno homem tirando Xerox do
corpo. Estado físico da vertigem em minha agonia. Signo de câncer; vida e morte
num cometa de tristeza. Emito esperança, entrelaço minhas veias na tua medula. Minha
imaginação encontra a cura.
Noélle me eclode em música. Pequena lilás, serelepe me dá todas
as manhãs capas coloridas.Saias rodando nos sorrisos, a mãe de Sophie que está
pra chegar. Sopro teu pousar com a experiência dos anos.Nosso amor é liquido e
teu jardim perto.Procuramos uma pela outra em nossas alegorias desenhadas.
Irradiações consanguíneas disparam o grito.
Eis que, no espasmo, imagino o manifesto do verso. Beijo
segunda-feira na testa. Teu cheirinho pulando de dentro da caixa. Meus poros na
tua voz mansa. Impulsiono o poema pra um canto mais arejado. Teu nome caindo no
chuveiro, tuas mãos me apertando no capitulo do livro, teu olhar confiscado
numa tela. Meu mapa nas tuas coxas, marco de saudade. Do outro lado da rua, vou
ao teu mundo, que sob medida encaixa-se em meu ponto de partida: recomeço. Meu
aniversário: teu beijo. Eletricidade no caminho das letras.
Espátula no teu corpo. Lá vai outra vez Izaías, desmanchar
no tempo enquanto o verso deságua na curva dum esgoto. Lá está nossa família,
no estranho elemento da ausência física. Na gaveta, submundos de perdas. Onde
estão Isaac e João? O peito exausto pede desculpa na madeira do caixão.
-Muito cuidado meninos, a saudade é uma substancia orgânica.
Não posso falar com deus por ter esta capa humana sórdida,
pra quem ligo pra ter um dedo de prosa com vocês? Há dois anos pensei em
procurar um bom agente funerário que nos agendasse uma visita.
-Na minha casa às dez horas, pode ser.
Transformei-me na porção hereditária do louco. Fui de metrô
para o Seol, todas as estações lotadas de memórias e conflitos. Muitos mortos
dançavam sem notar os movimentos. Tantos cadáveres dissimulados bombeando os
passos a espera de voltar pra casa. Sentei no banquinho ao lado de uma velhinha
cega, era minha avó que segurava uma cordinha com um relógio antigo. No barulhinho
do tempo já não marcavam horas. Pobre senhora, pensei.
Levantei a procura de alguma placa que informasse a sala do
escritório de deus,no caminho, um moço de jaqueta preta me ofereceu cem gramas
de pó, em troca, ele queria entrar no meu corpo só pra lembrar como é boa a
sensação de estalar os dedos. Agradeci e recusei.
- As drogas ainda vão te matar.- alertei. Ele sorriu e
entrou no meio dos trilhos.
Continuei minha busca, ou acharia deus ou o diabo que me
mostrasse solução. Nunca vi estação tão cumprida, andei por horas a fio sem
ninguém que soubesse me dizer onde trabalhava deus. Cruzei com um garotinho
negro dos olhos grandes, ele perguntou se eu vi sua mãe, disse imediatamente
que não.
Tantos sussurros e pedidos, tanta gente magra e feia santo
deus! Até que vi uma mulher de costas,ela era meu pai.
- Aonde está deus nessa desordem pai?Vou arranjar um jeito
de te tirar dessas acomodações precárias.
Deus é você- disse ele. Esse caos é lúdico. Vai pra casa
menina, dedilha uma lua ou uma poesia e cria a gente com um pouco mais de
encanto.
Evitamos o encontro. Coagidas, contornamos poemas mofados.
Em pouco tempo, suamos mãos e olhares. O medo nos viu na estrada com velas no
chão. Chegou uma carta, abri o selo e uma nuvem, eu chovia tanto nas tuas
letras que me esqueci de ver a semente escondida na carta. Tua vontade fez
nascer outra flor. Construí uma estufa azul no meio do quintal.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Antonio: Meu legado. Meu grito violando o vazio das
montanhas.
Maria: No ponto do naufrágio.
Elisa: Dança a margem /Absurdo pagão.
Lúcia: Outubro adormecido/ meu mago.
Laura: Menino devaneio.
(Cinco abutres em minha órbita)
Cecília: Enredo de cura. Poesia noutra língua. Aonde possa
estar o caminho. Flor confiscada no ventre da música.
...
Emissário da desordem,
Mansidão na idade da fábula
Pra você, um instante dentro de toda vida.
Meu juízo perdido na tua nuca,
Moro na dinastia dos teus cachinhos,
Na mordida que cruza rua por rua.
Teu cheiro dentro do verbo
Transatlântico de nova era.
Estou esperando pra ver o verso. Cair no mundo. Ficar só.
Tropeçar nas pernas da vida. Avançar de cara limpa. Chupar o tutano das
feridas. Deixa minha agonia fazer bloco no poema. Deixa o poema fazer coro na
calçada que é pra libertar a loucura no canteiro de obras. Tirem as placas das
gramas – pedestres já podem sujar meu território sem identidade.
- Deixa minha bebedeira Maria! Desova teu perdão em outro
cômodo. Eu não quero a paz da tua voz, nem a calmaria do teu vulto atrás da
cama.
- Deixa meu poema em paz Antonio! Ancora tua distancia em
outro estado. Que eu não quero teu amor no Rio de Janeiro, nem tuas promessas
me vigiando.
Dá-me um pouco da tua hóstia Deus. Que este domingo tem
pesado mais do que me cabe no vão de um haikai.
...
(Maria mãe dos homens melada em
meu desatino)
Já é domingo Maria. É dia de pendurar no varal a poesia.
Minha puta ritmando nos versos estacionários de um blues. Minhas crônicas estão
para o samba e você rompe o dia nas partituras da MPB.
Trabalhadores descansam da fumaça das fábricas, você a traga
em filtros de mágoa. Diacho Sofia! Você não deveria fumar! Tuas veias são por
demais fraquinhas, teu coração é soprado, tenho medo de te ver infartar.
- Sossega teu pavor Lúcia. O que mata é separação.
Emudeço. Não sei domar teu amargo. Pingo teu líquido em meu café.
Emudeço. Não sei domar teu amargo. Pingo teu líquido em meu café.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Quase diabo. Bordado no barro. Minha besta interroga a
rainha louca. Somos cartas de baralho que se afogam. Meu útero vazio no
corredor das “minas”. Há tanta pontualidade neste nosso pedaço opaco de
sofrimento que silenciosamente deitamos no epicentro de uma cova funda. As
rodas da fúria giram enquanto meus versos mastigam o mensageiro errado. Na
folha assino a poesia da puta a julgar carnes assustadas no gozo sideral de uma
guitarra.
Deus- impune. Minha tatuagem convertendo em verbos as dobras
do equivoco.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Proponho:
Assinar o poema com
as mãos calmas. Avançar nos meses. Sacudir os ponteiros, “descalendarizar”
nossos aniversários. Caducar as horas até amanhecer nublado.
Prometo:
Curar os mitos cotidianos. Ausentar o ódio das memórias.
Esvaziar tua mágoa com a paz que orbita em meu sono.
...
Parábola:
Nossas borboletas batendo asas na engrenagem de horrores que
articulamos. Casei-me e pago minhas dívidas. Tua pontaria atropelava meu livre arbítrio
e a casa transformou-se em uma ilha.
Cotidiano:
Bebemos café. Você acendeu outro cigarro e eu pedi um
jornal. Nosso país tão pequeno e não me chegam mais notícias. Preciso saber
sobre a política e o que fizeram da poesia desde a última guerra. Você abate
duas formigas passantes em sua mesa./ Você, avulsa ao fundo do copo./ Você, no
ponto da pistola...
Domingo:
Efêmero. Tua agulha em minhas pernas. Nossos farrapos numa
terra estranha. O corredor sinalizando teu crânio de bobagens amargas. Varanda cercada
por soldados vigilantes.
(Teu medo me pesa tanto...)
Sem Deus, incubo meus assombros infanto-pueris. Nove meses/
ao meio dia/ para este corte.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Somos animais sobrevivendo no ritmo perdido das fotografias.
Tenho medo de olhar teus olhos e ver teus quinze anos Sofia. Tua cegueira e
este ciúme destruíram tudo na casa. Tuas pernas dissimuladas blasfemaram nosso
tempo e por isso desejei tanto o abismo. Esbarramo-nos em silencio nos cômodos,
por quinze vezes renegamos o perdão. Pouco a pouco, a paixão esvaziou sua
substancia, deixamos pedaços na sala e nos fragmentos da pupila. Denunciamos nossos
nervos em revoluções individuais. Na casa, avançam os muros do império exausto.
Proporções gigantescas do nosso combate. Entornamos nossos peixes com a mágoa
desta guerra. Dos telhados, ouvem nossos gritos... Abrimos as gavetas de
partida.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Havia
um bocadinho de sorte dentro do horizonte que cintilava no verso. Nem havia
neblina, já que a paisagem pontual como o verão se encarregou de nos brindar. Os
meus olhos mais atentos souberam buscar os teus pra beijar. Daqui de cima, via
o mar mergulhar de manso nos teus ombros. As muralhas cariocas escaladas pelo
elástico que prende teus cachinhos. A geografia pertinente ao teu sorriso de
fada. Tuas mãos suavam a água de toda baía de Guanabara.
Descubro a vocação de pousar teimosamente em tua companhia. Nossos passos materializando o território do corpo. A bússola, desarmada, dançou nas fronteiras das veias
...
(até que, janeiro descubra nossos segredos).
Descubro a vocação de pousar teimosamente em tua companhia. Nossos passos materializando o território do corpo. A bússola, desarmada, dançou nas fronteiras das veias
...
(até que, janeiro descubra nossos segredos).
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Mãos que conduzem a vontade como ancora. Teu corpo amanheceu
no meu caminho. A boca umedecida amenizando a carga que se alimenta dos mares. Confundo
teus gestos com acordes ocultos, teu esmalte soou como presságio. Espio, coloco
a fome na mesa. Agonia. A febre tem pressa. A “flor” alvoroçando de poesia o
segredo.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Caneta invisível no início do texto
trabalho sabotado por miséria
agonia nos nervos
vírus criativo e intranquilo
um bicho no maior espaço das vistas
emaranhado de migalhas sem identidade
batalha dos dedos ocos
inspiração empedrada
relógio debochando dos rascunhos
o café editado pela boca
o poema trepa e goza na cabeça de outro autor
enquanto meus versos implodem e dormem nas calçadas
funerárias.
A chuva caindo precoce
temporariamente se descara antes do adeus.
Os dedos mastigados de rabiscos encardidos
Entendem a razão do vício e da cólera...
Transmiti um compasso ao morder tua língua,
sonoridade resfriando mágoas.
Da tua saliva fiz a lágrima que agora pinga no Atlântico.
A água foi inundando a rua
formando muros de ondas.
A febre acrobática fazia nado livre,
doença que não te absorve além dos seus próprios devaneios...
Meus livros sendo arrastados pela correnteza que tanta água formou na sala.
A iluminação fraca azedando meu corpo,
apodrecendo a arrogância de nossos umbigos.
Um bote saía do corredor até onde nossos pés alcançavam,
com cuspe, desconstruímos nossas posses.
Cansados, transbordamos onde a razão estagnou.
Calmos, umedecemos os gritos de ternura.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Exposição
Teus pedaços
Num quadro,
Numa parede,
Numa fotografia,
Numa poesia,
Na escultura,
No meio de tanta sede de olhares
E eu te bebendo gota a gota em segredo.
Procurei teu cheiro no índice
No título, no meio do parágrafo,
no prefácio e no desfecho.
Saí cheirando tudo
intrometendo meu olfato em outros pescoços,
em carreiras de pó,
em golas de camisas velhas,
nos frascos pela metade e nos completamente vazios.
Cheirei café, cheirei hortelã
Teu cheiro não me achava
...
Eu é que estava dentro do livro,
eu que preenchia as folhas que seus dedos tocavam,
eu era o pedaço omitido do teu romance preferido,
eu estava lá. E você a virar minha última página.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Sangria
Rebelião descansa agora sob os dedos.
O passado trazendo o mundo para dentro
e os pés gelados atestando a falta de rumos.
O que fica é o sexo-casulo.
As estrias histéricas vestindo-se de medo,
um resmungo vingativo e gelado.
O beijo sem língua, o joio, o trigo e a cama
A dor antiga saltando no vocabulário,
meus dedos cravados nas paredes recém pintadas
O frio das nuvens enfurecidas fazendo cerimônia.
A neblina, a ressaca
empurrando os peixes mortos das calçadas.
Tua faca desorientada botava de volta a língua no beijo
Tentava molhar o sexo de ternura
bebendo minha chuva com saudade.
No fim do mundo, cuspi no teu corpo com esperança,
tua garganta aberta via meu silencio estúpido.
A tua e a minha íris arregaladas de perdão.
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