domingo, 20 de março de 2016

Veja bem minha velha,
A saudade voa
Pousa nos brancos fios e,
na flor da caneca
que cruza duas cidades

A saudade me encharca mas,
o relógio silencia
porque
espera teu regresso

Quisera em outra vida,
fazer da fé meu leme
te pedir outra vez em casamento
fazer teu prato favorito
sentar no portão
entardecer no outono
enquanto você faz crochê

Se eu pudesse,
Juntava o céu com a terra
pra regressar pra você
que é meu lar.



sexta-feira, 18 de março de 2016

No país de Ana


Ana inaugura uma poesia
que, nem mesmo eu conhecia,
nos colocou no país encantado dos novatos

Amor recém prendado,
gargalhadinha de música em flor
...
Ana nem sabe ainda, mas,
desconfio que depois dela,
quem nasce somos nós.




Abro a caixa da infância,
tenho cinco minutos de riso.
A pequena,
desperta do sonho de breve vida
(MI-ANDO saudosa)

Caçando passarinhos no abacateiro 
ou,
afiando as unhas no sofá,
mordiscando os pés distraídos
pra chamar atenção.
Candura em quatro patinhas
Jardim das curiosas percepções
Legitimada pela poesia,
Construí  um céu-felino

Pra morar seu ronronar.

  E depois de tanto tempo, eu tenho medo da morte outra vez. Não estou pronta pra sua partida, suas velhas mãos ainda estão presas nas minhas. Seus passos lentos e cuidadosos para não tropeçar nas pernas da saudade ainda pisam neste chão. Talvez, eu deva orar baixinho, pedir que tua ausência saiba ser presença em minha poesia. Eu escrevo, escrevo pra arrancar o nó que sobe amargo na garganta e trança no choro que quase vem.  Como se meus versos pudessem te trazer a cura, como se cada estrofe fosse um amuleto. Eu sei...Eu sei... Está chegando a hora. Partir... A partir das partes de nós  que ficamos por aqui.

domingo, 13 de março de 2016


Esta casa, velha como meu corpo,
abriga minha loucura.
Obriga-me a escrever sobre seus cômodos e meus incômodos,
sobre minhas portas e suas paredes.
Quase sempre, esta casa e eu somos um só,
fundidos em uma rua,
localizados no centro do caos.
Esta casa, me gerou no tempo
envergamos nossas carcaças,
endurecemos no fio dos anos as carapaças.
Amanhecemos por vezes amarguradas,cobertas pela fumaça dos carros e solidão.
Esta casa senta-se à mesa comigo
(compartilha seus medos)
Precisamos nós duas de uma pintura e um novo abrigo anti-bombas.
Somos velhas amigas,
escondemos nossos temores em passagens secretas
que nenhum visitante jamais ousaria entrar.

Câncer


Em julho, cordão de vida
Cometas delicados, poema fecundado na nuvem
Dou teu nome pra uma árvore,
Procuro teu abraço-azul neste espaço
Me faço de ar e vento
Por um momento te respiro
Por um movimento te alcanço
Penso que, de longe, sou lenço, vou manso
De perto, nossas partículas propagam (Miro e vejo em tuas costas de algas)
Erguendo a onda mais clara que vi
Mergulha no pedaço de poema comigo
Vou humana, vestida de palavra
Aos poucos te dispo
A cada verso que tiro-te
Vejo-te a humanidade neste jardim d'água
Esta onda d'algas, quebra-se nas areias da ampulheta
Escolhemos o terraço do tempo
Ungimos o mundo com nossas possibilidades

(Dueto de Natacia Araujo e Paulo Alonso para a página Ilusionistas do Verbo)

Resposta


Colado ao vento, copulo com o verbo
Pois, o poema quer viver
Mire bem que, em teu cheiro (folha única)
Tenho pátio mágico com todos os encantos do mundo
A letra mais intensa
Marca minha pele como um sonho frio
Sei que é deste lado que o poema desenha seu rosto
Sei que é este lado do seu rosto
Sugerindo poemas
Os dedos ficam aninhados no mergulho das pupilas
Este é um alívio transgressor, evocando presença solta
Acontecimento de minha própria humanidade.
Prevejo uma embriaguez saltando da língua
E a fúria criativa entranhada no corpo
Prevejo a sua imagem me olhando na superfície da água
Ouço antecipadamente
A sua voz me responder quando grito no abismo
Tua poesia dá razão ao meu barato
As mãos, em transe, digitam coreografadas teu colorido
Nasce multidão no buraco de nossas palavras que,
invoco e danço
(Não se esqueça: no útero do céu, tudo é agora)

(Dueto de Almi Junior e Natacia Araújo para a página Ilusionistas do Verbo)

E o relógio ainda pulsa


Você, desordem programada em meio ao caos
Sodoma e Gomorra virtual
Mais e mais de você se expandindo
O poema parte se feito fruta de temporada
Parte do efeito das asas desatadas
Dos nós complicados de nós mesmos
Mesmo que nesse caos do voar das mariposas
Atinja meu tempo, levarei-me a esmo
Escrevo em minha nuca todas as linhas
Tuas cordas em meu pescoço
Deixo pra trás todos os poemas que formamos na sala
Embarcamos no devaneio florido
Bons presságios, nas asas contorcionistas que a inspiração escreve
Bons agouros
Duma ação que move seus mundos e fundos
A fornalha da locomotiva pelos meus dedos
A forja que produz essa corrente que te sustenta
Elo a elo, encadeados, encarnecidos
Metal gelado (língua no disparo)
Marco zero nas duas luas da tarde
Estou dispersa
Nem sei denominar esse novo tempo
Último dia, você arranca o relógio do pulso
E o relógio ainda pulsa


Dueto de Paulo Alonso e Natacia Araújo para a página ilusionistas do Verbo

Dueto

Com o fio da poesia transparente a nos unir
Rascunho dentro de nuvens
Do Atlântico cruzamos com o inesperado
Inflando a arte de azul
Na ponta do verso aponta a flecha
O olho é arco em alto-mar
O alvo a imensidão aberta
O sol se pondo na íris a tardar
Enquanto a noite engole o azul
Vermelho o amor dança na areia
Na fricção da pele
Estrofes marítimas
Não há rima
Mas há ritmo na liberdade das línguas
Manda chamar alguém que tenha as chaves ta tua caixa torácica
Alimentando as batidas dos próximos poemas que vir
Somando nossos pedacinhos úmidos nas estrofes
Águardendo nos poros subaquáticos de vida.
(Dueto com Rai Blue e Natacia Araújo para a página Ilusionistas do Verbo)

Prosa poética


Procurou caneta e papel. Vinha vindo um poema no meio da sala.
Às 14:30,soltou os cabelos. Ela tinha seu nome ancorado na coragem. Girou as saias: rodo[vias] para encanto.
Veja bem...É que o caos não tem a mesma força do aflorar da poesia, e o medo só chega se a gente não aprende a recomeçar. 
Recomeço.

(Texto feito para a página Ilusionistas do Verbo
Foto: Robert Doisneau)

Carnavalizar


Saio... No meio da multidão,
Os meus versos sabem ser livres
E a vontade grita
Estou no bloco do desejo
Meu santo é forte e te devora
Tenho serpentinas e batuque sortido
Minha nação é vontade
Minha bandeira é liberdade
Estou acesa e solta 
Plena...
Carnavalizando o sumo da vida



(Poesia feita para a página Ilusionistas do Verbo)

Carta- Poema de fotografia para “João”



Quando vem o dia, rompo junto...
Como uma fonte de água,
dando socos no muro da poesia que,
escrevo e minha nuvem dança:
- Do lado de lá: vida. Aquela parte que, por um momento me neguei a ser. Por isso, joguei fora aquelas velhas cortinas azuis. Hoje e amanhã, a partir de ontem, o presente é preenchido pelo pássaro desenhado no meu vestido - quanto mais eu giro, mais ele voa colorido.

(Imagem: Obra “Morning Sun” (1952) de Edward Hopper)
(Texto feito para a página ilusionistas do Verbo)

NADO SINCRONIZADO


Canoa minguante,
remando nas marés 
à própria força

Atordoado sopro...
Fôlego náufrago em minha corrente,
e na água lodosa que supõe 
a madeira retorcida:

Nadamos juntos 
em espasmos descontentes.

(Texto para a página Ilusionistas do Verbo)
Foto: Débora Andrade)

Mar-Lunar



Uma coisa fragmentada
[Nos conduzia
Pulsava em nossos cantos
[ implodindo presságios lunares
A língua em braile lia
[ nossos abrigos escondidos
Caímos juntos,
Aos poucos,
Com os gemidos dos cometas.


(Imagem: Max Sauco
Texto para a Página Ilusionistas do Verbo)

domingo, 6 de março de 2016

Corrida dos recém solteiros

Foi dada a largada: A boa e velha corrida de quem dará a volta por cima ao final da relação foi inaugurada. As fotos em noites felizes, bebida em punho,largo sorriso, filtro do Instagram preparado e, possíveis novos parceiros para fazer afronta. Roupa nova,mega produção. Tudo conforme o rito de passagem manda. O batismo dos novos solteiros começa e você se sentirá na obrigação de bater ponto em todos os eventos da cidade. Todos os artifícios para não pensar e não lembrar, vale de peteleco na orelha nas fotos felizes de casal até jogar as roupas do outro fora.Mas, não esqueça que,não importa quem fez as malas e partiu primeiro. Sua mente vai ser pra sempre a casa que você vai morar. Não há para onde fugir,por isso,esqueça de uma vez o medo do novo,e saiba que,enfrentar a carreira solo por muito ou pouco tempo é fundamental. Nada é nosso, o amor é patrimônio público. Tom Jobim errou feio: É sim, possível ser feliz sozinho.

sábado, 5 de março de 2016

Microconto cotidiano

Não funcionou. Como quando a gente sai do cinema com a sensação de ter assistido a um filme sem sal. E eu já não sei a muito tempo viver de romance meia boca. É que eu preciso alimentar minha poesia com amores que queimam, saudade que sufoca e faz a gente querer gritar. Amor tem que tocar blues no estômago, arrepiar a nuca e fazer o tesão brotar só de ouvir a voz do outro em um telefonema às duas da manhã. Amor tem que ser danado, meio carinho afobado, meio verbo ritmado.
https://www.youtube.com/watch?v=TkD97-dBCo0

Crianças-fósforo

Ancoro em uma praça
cercada por
mulheres-morte
e crianças-fósforo

Os bicos das mães
jorram café
Estamos elétricos,
o moço no final da rua
toca Bessie Smith

Minhas células ciliadas
orientam-se na multidão
abafada pelo frio.
Deglutimos juntos
do pequeno caos que se forma

A música impulsiona todas
as colheres dos bares
que nos atiram
amendoim fresco
Acertando em cheio
a cadeira de balanço
do velho da esquina
que fuma seu cachimbo

As mulheres abrem seus
guarda-chuvas
enegrecidos pelo tempo
Enquanto as crianças se acendem 
no centro
de minha memória

Estamos bêbados,
meu Estado é


Ode a Bethânia


Bethânia invoca meu som
(tom de água)
Mulher-trindade
Aquático barulho
Quase brando,
 espumando acordes indizíveis,
com seu barco voando 
no meio das palavras gigantes

Arrasta fantasmas
que, daquela água
bebiam e,
arrotavam nossos medos
como se soubessem
o gosto de dentro
( e eu não sei de mais nada)

Sei que,
em sua música
há de florescer
mais tempo
além do próprio tempo

(Bethânia líquida em meu devaneio)
https://www.youtube.com/watch?v=Tl89uZMI2fk



No meio da calmaria

  Saiu, assim mesmo. Do jeito que entrou. Sem brigas ou bate boca. no meio da calmaria, no ápice do nada que acontecia. Esfriou o tempo, esfriou o café. Do outro lado do mar,tinha uma onda chegando. Era o marasmo que precedia a poesia. Às vezes, é preciso silenciar pra ouvir o caos.
https://www.youtube.com/watch?v=MWoJGe0xANk

Fuga

Eu fugia do verão
Uma nuvem me perseguia,
sem sombra,
o amor derretia

Sol escaldante
Inferno suburbano de Dante
às seis da manhã
o abafamento engolia
a casa e,
eu,junto da casa suava
Cari-oca
minha inspiração precisa de tempo frio.
https://www.youtube.com/watch?v=XGEiY3tsxrY

Bairro dos novatos

  Vou ficar quietinha, pode deixar. Feito filhote de passarinho que esqueceu o que é cantar. A vida é curva e essa virada carece de silêncio- O momento exato em que a mente flutua no divino e pede a Deus novo rumo. 
Nessa hora de agora é preciso corda no ponteiro que marca os minutos e recomeço meu. Tem um ônibus que me leva pro bairro dos novatos do recém recomeço. 
  Acordo cedo,faço sinal, entro, sento-me ao lado de uma velhinha que diz:
_ Ora, filha, se eu, nessa idade, recomecei essa semana já três vezes,você vai ficar bem também.
E, sorrindo me apontou pra janela:
_ Viu? O fluxo é contínuo... O dia, os rios, os carros e pedestres...
Evoluir...
Evoluir...

Microconto cotidiano

Deitou no sofá pra me pedir cafuné. Mas, eu estava oca, desprovida de carinhos. Zapeava os canais como quem mudava o cenário de uma vida. era preciso envergar a terça até virar sexta, mas não tem jeito,eu tinha a secura careta de um domingo. Desliguei a tv. (E você de mim)
https://www.youtube.com/watch?v=Y-TVyEW2iC0

Sete anos

Depois de sete anos,
descobriu que,
as amarras que a prendiam
na verdade,
eram um único fio invisível a ser cortado
https://www.youtube.com/watch?v=Ci9E_ZhFVd0

Microconto cotidiano

Iniciou um namoro pra se desprender das amarras do passado. Tateou o primeiro que viu. Ficou com um que não conhecia literatura ou bons modos. Em menos de um mês, o rompante fez cair a ficha. O poema queria de novo aflorar. Desculpe a sinceridade, mas com homem burro e machista não posso ficar.
https://www.youtube.com/watch?v=2hvVlpXEvCE

Pálido ponto azul

Carece ser um sonho,
de eu entender o Cosmos
os astros e os Sóis.
Bilhões de anos-
poeira estelar
Meus átomos em outros seres,
incontáveis ciclos,
minha família próxima ou distante,
descobri ser toda planta,
bicho ou gente,
via Láctea ou Andrômeda
dançando num entrelaçamento quântico.
Toda estrutura universal
Microcosmo e Macrocosmo
"Tudo que já foi e, tudo que será"
Na arena-mãe de toda vida.

Na roseira

Tua flor, no divino jardim,
no canteiro, sem vaso,
em meio a calçada
já que do asfalto
nasce a cura

Tua flor que é minha reza,
o ato religioso,
um milagre
da fé que expulsa 
o que é frio e certinho
sendo torta e fresca

Tua flor que minha também é
despedaça o vermelho
e tinge tudo de azul-
o moço te pintou
te vendeu pra um casal,
pra flor
florir no quintal

Era meu pai

Ontem, vi uma borboleta negra,
era meu pai.
Na estampa de suas asas,
tinha uma letra da velha canção
(que um dia você cantarolou andando pela casa)
amanhã te verei colorido
suas asas me aninharão
voaremos juntos pelo quintal
você pousará nos meus dedos
Não terei mais medo da imensidão.

Canhão de flor

Gostaria de atravessar a casa, a rua,
o tempo e o canhão de flor.
Rasgar essa folha
pendurar na parede,
no cabide,
no espelho,
desdobrar as roupas,
jogar no chão e deitar...
Me embrulhar,emaranhar nos fios de cabelo,
de linho,
e de alta tensão

Onde se esconde aquele pedaço
de flor, de bolo, de juventude?
Onde eu vim parar?
O dia está tão estranho...
Azia, fúria, cansaço,
formigamento, falta de cor.

(Começou a chover, na casa, há um rio inteiro de mim).
https://www.youtube.com/watch?v=9yJWntQYMQI

Quebrar o copo

Não me acostumo com esse estado de vazio. Com o dia que amanhece sem nada a dizer. Com um copo que é apenas pra beber, com a literal função das coisas.
Eu quero é desconstruir! Quebrar o copo, e fazer dele um mundo de finalidades. Me deixem tentar ver o mundo com a alucinada lupa poética! Não me coloquem quieta, de oito às cinco em uma gaiola. Me libertem! Eu quero fugir da normalidade frígida, quero me salvar desses goles pequenos, dos rumos escolhidos com pautas. Quero endoidecer pra descobrir o que é lucidez, perder a esperança pra gerar fé, perder o estado de poesia para poetizar esse cotidiano limitado e pálido.
https://www.youtube.com/watch?v=5fJ_Qj-weTE

O poema quer gritar

Querem me tolir,
fazer calar a voz dos meus versos.
Me querem no canto da sala,
amuada,
envelhecida.

Meu poema quer gritar!
Em repúdio,
em revolta.
Minhas palavras querem guerra!
Não vou sufocar a inspiração
 (Não posso)
Estou munida de arte, fúria e imaginação
Quero a febre e o ruído
Luz acesa,pólvora e música

Saia do meu caminho!
A poesia é meu automóvel-
Minha bandeira e comida
Sopra recomeço no epicentro da ferida
...

Cabo de guerra

Estou desperdiçando vida-
Deus me deu tamanha imaginação
e um corpo tão cansado.
Tento alinhar os dois
Resgatar a paz entre os dois
Mas, não há acordos,
ambos são geniosos...
Quando dou conta,
formaram novo cabo de guerra
(Cão e gato)
Gostaria de selar um acordo-
Mas, me vem sempre o paradoxo:
Poetisa impotente
Água e óleo nadando na corrente.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Sobre nós

Gosto quando deitamos e confundimos as músicas com nossas próprias histórias. E enquanto toda a gente lá fora se debate em suas rotinas, ficamos no quarto, dentro de um poema ou música,num carinho que carece morada e só cabe nós dois. 
Gosto da descarga elétrica sutil que nos invade no meio de um beijo ou cafuné, um choque igualando os corpos na mesma sintonia. Por isso, fico. E gosto cada dia mais do emaranhado de fios que começamos e tecer, carinho amalucado que alterna dengo com tapas. (Risos)
Fico porque vejo que ainda conseguimos encontrar no pior momento de nossas vidas a calmaria de estar começando a caminhar ao lado de quem nos quer bem. 
Repara bem no que digo:
Fico. Que é pra construir afeto, que é pra aprender a esquecer aqueles que um dia nos fizeram tão mal. Estendo sob tuas pernas uma ponte. (Por isso, passa pro lado de cá da vida). Cobre de paz e recomeço tuas mãos e entrelaça nas minhas. (Há muito além de nossos corpos enfraquecidos pelos beliscões doídos de amores passados).
Assim, inauguramos os ventos que nos impulsionarão como nuvem. Sem amarras, medos ou culpas, voamos...Livres e sempre adiante. 



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Oração ao centenário

Brincamos no pedaço centenário de vida, teus tumores abrindo flores e a mão do vento emaranhada em minha culpa...

Teus restos chovendo no meu quintal, tua velhice orgulhosa dos pés de frutas e serviços de carpintaria, minhas mãos penteiam teus grisalhos fios de meu respeito e amor. A vida minguando tua saúde, tua ferrugem nos brinquedos do parquinho, e tua areia soprando nossa rua aos soluços - Cupins camuflados de morte, mascarados de fragilidade e final rondam a casa, mas entre os muros e os medos você sobrevive, tua natureza sábia é dona de uma espada transparente para que a poesia flutue em nossa esperança. Deus ecoa nos teus anos de vida, nas gavetas de filhos e netos dos teus versos de um dia.

A vida prossegue na cria dos teus ossos encantados, nas dobraduras da tua herança, existimos: amor.












Ao meu avô: Queiroz.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013



Desaguamos no olho do medo
Teu olho no meu (– olho do furacão)
Embarcamos no devaneio florido
Mastros controlados por nossos gemidos
Tecidos nas velas pingando no leito em que deitas
E no leito do Rio de Janeiro
...
À deriva, impedimos o poema de naufragar
No meio de tantas águas das tuas lágrimas salgadas
Que nesta sala formaram um mar.




Regresso aos veleiros ancorados nos espaços de nossas falas. Em dezembro, proclamamos nossos versos na soltura dos vestidos, no sanfoneiro barulhinho dos dentes a se expandirem e abrilhantarem nos pratos lustrados dum sorriso. Um copo de café, a falta que o cigarro faz, a tarde aquecida da fumaça imaginária do verão na contramão. O nevoeiro por cima do abismo que os próprios passos provocam. (Olhar esperançoso de hortelã).
Veja bem Cecília, o poema está embaralhado nas páginas do livro que teus dedos passam e na fumaça que salta da minha boca “atabacando” o quarto com tua fúria compenetrada em meus vícios rareados. Labaredas nas tuas marés, minha droga nas tuas veias, um rio de orgasmos a coagular nos teus seios, e o suor a pingar no conta-gotas dos teus olhos juvenis.
No cotidiano do poeta, nascem flores e capim fresco. O quintal está repleto de chuva e o abacateiro tem gerado grandes acerolas doces que pescamos com nossos beijos de jujuba e amendoim. A casa da frente é verde, e nosso jardim lilás, feito os vaga-lumes que nos aparecem somente durante o dia.  Entenda que estes são os nossos pertences que carregaremos em nossa tenda toda vez que amanhecermos juntas. 


sábado, 23 de novembro de 2013

Na rua Silva Cardoso, lastro de malabares reluzentes na chuva. Silvia é dona dos bondes, dos botecos e das calçadas portuguesas do subúrbio carioca. Os seios céticos simbolizam a sintonia entre os astros e os mastros dos marinheiros em suas ondas pélvicas. A boca pinga de trovões os pontos de ônibus, as máquinas das fábricas e os restaurantes lotados de sábado. Silvia me enche os pulmões de um bairro com apenas três ruas, as vias de Silvia são de asfalto e saliva lubrificando o trânsito e sua voz rouca. Em meus dedos, a digital inflamada dos segredos de Silvia. Já não há embaraços nos traços de uma tarde em novembro.

domingo, 22 de setembro de 2013

Desandamos a chorar. Setembro tem dessas coisas que a vida não sabe aproveitar, como naquela tarde em que a calçada abriu pros nossos pés juntinhos passarem e arrastarem com a poeira saltando das solas todos os verbos que o chão ia declamando nas notas da canção. Não esqueça de anotar- a gente vai passando embolado nas lembranças, um pouco perdidos, um tanto desajeitados e fragmentados, mas a poesia emerge de um estado caótico e milagreiro, os versos sabem invadir os silêncios mais oblíquos e nossos encantos vão transbordando em nossas invenções travessas. Espantamos e descaramos o medo- entidade exibida, setas e o êxito esvaindo-me em versos agudos. Cerejeiras procriando em meu endereço, o ontem deitado em um caixão de ternura, signos sem culpas, estendendo os olhos nas reticencias da arte. Minha imaginação dona do mundo me olha de dentro com esperança, inscreve meu nome no ponto de partida. Bons presságios- vibrações nos esboços, nos mapas que a cabeça dança, nas asas contorcionistas que a inspiração escreve. 


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Coloca o poema pra deitar,
deita junto do poema...
Carrega o poema nos braços,
cai nos braços do poema...
Enxerga o beijo mentolado do poema,
dança o poema e canta o som que ele faz...
Desfaz o poema e se  reconstrói,novo...
Coberto das cobertas de encanto da esperança dele.

Escuta o beijo que o poema faz...

Nossos versos teimam em interromper a realidade,
nossos corpos insistem em querer tanto
e as bocas só sabem falar depois do beijo,
e a vida recomeça no instante em que nos beijamos outra vez...
Descontinuamos de onde paramos e tornarmos a entornar os corpos
e a entortar os passos,
e estes teus traços que o batom contorna nos lábios do poema que eu volto a beijar

...
Toquei um poema baixinho,
teu ouvido me sorriu melodia de vida...

Vi um poema no cisco do teu olho,
deixa eu soprar.

domingo, 1 de setembro de 2013

Primaverando

Acho que vi um pedacinho da asa de borboleta estampada na tua camisa, naquele momento em que teus braços esticaram nos meus ombros e expandiram em coloridos que grudaram até o caminho da minha nuca. Depois, vi duas borboletas saindo de dentro da taça de vinho, o líquido tingia nossas bocas de poesia e sotaques de primavera. 


domingo, 18 de agosto de 2013

Resgato o gosto fresco na ponta do cais. O sabor ruivo dos próprios a/pelos. Cortinado de água salgada na vista turva, expelimos recomeço nos poros aquáticos do verbo. Meus pedacinhos de poesia reencaixando nos naipes do jogo... (Fique uma rodada sem brincar).
O poeta, com suas serpentinas, fez-me um vestido de carnaval. (Carnavalizando o sumo de à/gosto).Estou para com a liberdade,assim como o poema esta para com a inspiração lisérgica da vida. Tenho nas mãos agora, a cartilha e o carvão,no momento exato de vislumbrar as letras todas acomodando-se em suas cadeirinhas acolchoadas,por dentro, espumas e plumas, por fora: cetim. Acho que, se você dançasse, a chuva despencaria das nuvens direto para seu quintal, e os versos formariam pocinhas de poemas umedecidos de jovialidade e ternura.Do ângulo da felicidade, estou do lado de cá,e vou de encontro ao coro ninado até que, os versos todos fiquem azuis. (A felicidade é uma fotografia em tom azul). 
Por dentro da bússola, magnetismo do que virá. Pontinhos cardeais abrindo poesias e sorrisos. 

"...A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor..."