quarta-feira, 15 de junho de 2016

Lanço ao tempo peregrino pedras amargas. Ao tempo cativo espigas vindas do Norte. Ao tempo ambíguo cheiro de alecrim virado pro Sul. Da seiva bruta escrevo três linhas no jornal do mundo.
Não vai haver guerra...Apenas nuvem negra sobre minha página. Abro a nuvem, me engasga a visão:

Um fantasma regressa do terreiro, perpassa rente ao meu pescoço -meus finos fios levantam-se em dança. Diabo vagante em minha casa, arranca eletrodomésticos da tomada,roça meu seio, engole as telhas da rua como se despisse flor de lótus. Demônio suspenso, veste branco, mas está de luto, definhando em seus pastos de besta, me engravida da miséria rugosa de um instante. Escondo-me nele,confesso tudo,sílaba a sílaba e o verso voa.

sábado, 11 de junho de 2016

No caos, todos sonhos viram merda. Encruzilhada de Mulambo,cartazes que contratam anões de circo. Letreiro político,papagaio pendurado no ombro do pânico, pé de curupira em cauda de sereia. Voto na urna ou voto de castidade,tanto faz, se ambos encalham no rabo de um gato preto e azarado,nenhum é levado a sério,nem é respeitado. No comercial de hoje vai passar minha fome e os filhos do estupro que ninguém quer dar nome.
Lacrem suas vaginas!
Ela estava pedindo...
Vagabunda sem as chaves do corpo, deixa...Os corvos dirigem
Cratera na garganta, "me traga um copo d´água, tenho sede",arroto duas tochas, uma eles usam pra Olimpíadas,a outra, queima bruxas na fogueira.
A biografia do povo é um pombo com febre tifoide esmagado pelo carro, não tem nada mais belo que um pombo estrebuchando em migalhas de pão.
Tava escrito, Jairo cheirava um carrossel por dia, mas não sabia do cheiro das páginas de um livro novo, sem escola, foi pra rua roubar,num assalto, deu tiro pro ar, a bala perdida achou o peito de  Dona Maria que era preta, pobre e do lar. Perdida mesmo ficou Géssica sua filha, que órfã de pai e agora de mãe virou funcionária de um puteiro na Mimosa pra bancar o Danoninho dos quatro irmãos,Géssica bem que tentou, mas não deu, foi outra, viciou, e assim o ciclo se renova.
Quem lucra nessa roda é político,mídia e funerária.

https://www.youtube.com/watch?v=LVfVoFLGeEo

Encontro outro nome. Sei que, com porradas, apanho peixes ou descubro o mar. Dói, sentir a queda sem prévio aviso. Um dia, em cantos brancos, escrevi poemas, dediquei amor. Fiz reza baixinha,denominei Cecília,inventei molinhas pra um encanto que nunca foi amor.
Amor, não mente, não fere,não engana, até um pequenino sabe, amor é troca, empatia,olhar o outro dormindo e descobrir a cura,fazer planos,ser leal, mãos trançadas,poesia de manhã e música de tardinha. Amor seguido de pistola é um desperdício. Amar é amparo,ruínas que sabem construir dinastias, beijo molhado que a gente não consegue decifrar, ofício sem equívocos,carinho ambíguo, agudo como um grito,manso e sem lacunas. Amor sabe regressar, sem mochilas, olhando no olho, assinando recomeço de próprio punho sempre que precisar. Amor recupera cada trecho, não importando o hiato de meses ou anos, porque amor multiplica e sabe voltar forte,não covarde,não egoísta... Amor doa,amor quebra o muro,tem febre e mil asas pra um mesmo sonho. É incômodo,combustível e improviso, mas nunca silêncio,nunca medo. Amar deixa o corpo dolorido,mas sobe ou desce a rua com os pés descalços,contudo,sempre honestos. É curativo, e é bússola pra quem não precisa de cartografias. É uma vocação intuitiva na esquina do mundo,você simplesmente ama.  Amor sustenta um livro,um pássaro ou um tufão.
Um dia, eu quis esse amor... Amor de reza baixinha.
Na ilha do futuro
Há uma fronteira
Minha poesia
que é minha casa
se orienta

Um dia,
me soltaram cães
e a cicatriz
velando-me artérias
modelou meu corpo
virou beleza, legado

Meu curinga transformado
Desembrulha-se sob os
novos sons do mundo
Meu corpo esquece o próprio corpo. Desde meu copo cheio até acres de terras amargas, o corpo em resinas retorce. Calo. Há quem confunda Campo Grande com Grande Campo, mas quem não comete desatino não sabe conjurar metáfora. E já é noite, assim mesmo, fria, detida e: mesmo sem chuva, meus cabelos são chuviscos e esse frio de sangue e amoras trazem as mesmas barbaridades. Meu céu fica limpo, livre de culpas, trago comigo um guarda-chuva em desuso e mesmo eu, que vim com tanta coisa, nunca vim com tão pouco.
Desperto, cada despertar é um desencontro, então paro, pra ornamentar o céu com minha ingênua e modesta cegueira. Recursos que se perdem e espero que não mais regressem, nem ocultos ou mesmo em histórias futuras. Não decifrei que do musgo não haveria flor. Musgo é sempre musgo.
Zerar o passado dava medo. Pessoas ruins passam, juro que passam. Uma era brasa azul e a outra negra, mas elas apagam,juro que apagam. Dava mesmo um medo graúdo, garanto que dava. Não sei quanto tempo dura o suspiro só sei que choro,chorei mesmo, admito.  E ele me responde como um desafio. Até a chuva aqui, agora, coagula, mas dessangra a conta-gotas. E este som afiado e sinistro será recusado e calado ainda, juro. Engomo meus escombros, rompo no talo, redobro de forças dente por dente enquanto mordo as palavras encurraladas: Nunca mais!
Zerar o passado dava medo,juro...
(Mas, por medo não morro mais.)
Ai do seu talvez,nem mais minhas sobras,nem lugar em meus poemas ou história, dente a dente mordo as palavras "Nunca mais".
E sobre o que fica: Lição...
Pessoas ruins passam, juro que passam.

sexta-feira, 10 de junho de 2016


Escapa
E o que éramos
extravia no meio da noite
Por aqui,
escurece
Meu quarto estanca
Mas da cama,
brotam árvores
Fornecem vida e algumas lembranças

Você concordaria que,
ninguém se arrisca a ir pro Atlântico de jangada

Quem tem uma flor nas costas
É que a flor sabe boiar nos confins descontínuos de uma promessa
(Quem um dia amo,nunca deixo de amar)

Nesse improvável equilíbrio,
tenho o deslumbramento reticente aberto
enquanto alguém me lê
sob um rastro saudoso de senãos

Ondulante como o Atlântico,
avanço
Meio ofegante,meio calamidade
Então,em elipse caio de costas...
Minha flor e eu.

sábado, 14 de maio de 2016

Livor Mortis


O edifício deste corpo
abriga nova guerra
Me vem um trem vazio
(cheiro de fumaça)
atravessando 
os cômodos silenciosos

Este corpo
que é também minha jaula,
alimenta minhas feras
(Estou sem custódia)

Confuso, fecundo o delírio
Sou pai 
Da carcaça humana
Que Re[alimenta]
A cansada máquina de tentativas.




Poema feito para a página ilusionistas do verbo
Arte: Paulo Alonso
Emergir...
No tempo que me divide, na casa transitória que vai além da minha boca. Suspenso em meu sonho está a cólera mais substancial que minhas próprias raízes. E eu tento supor mais sobre os lugares por onde você toma seus vinhos baratos, sobre os caminhos que tua barba roça, virado pro Sul como uma ave que sempre parte.
Essa tua máscara de homem não combina com meus joelhos dobrados da dura carga, tuas horas azuis não despertam meu terreiro e, se eu te contasse, você não acreditaria, mas, todas as minhas manhãs sangram e cospem fogo no devaneio de uma vida mais livre. É que eu permaneço presa, no tempo da palavra, esmagada entre um poema ou outro. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Sobre o peixe exótico e o aquário


Estou morando em um aquário
Meu avô é um peixe exótico
e eu- um magrelo peixe-peão
Duas ou três vezes por semana
o aquário abre pra visitação:
Pessoas se aglomeram-
Todos querem ver o exótico peixe
com metade da nadadeira
- Vejam que raro!
Sentem afeição
Mas,o peixe que não é gente
e sendo apenas peixe,
é afagado e colocado de volta no aquário
- Peixes morrem fora da água,sabia? (Dizem)
Diacho de vida
Ninguém viu que,
Água de aquário é que sufoca?
Têm dias que o peixe fica
quase a estrebuchar...
falta de ar,também tonteia a gente.
Faz virar
peixe velho num aquário de tristeza
Outro dia,
o peixe exótico assistia tv
era um documentário sobre os rios
mais bonitos país
Vi seu corpinho inclinar tanto que,
Achei que ele seria capaz de nadar
Mas,o peixe queria mesmo era voar
Pra fugir do aquário
Pra fugir da mesmice
Delimitaram tanto o espaço do peixe
que, ao fugir em nado preso
bateu no vidro do aquário
...
Vida e morte em nado sincronizado

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Braços dados


Primeiro nascer,
no centro da festa
com seis cores 
em uma mesma flor:
[POESIA]
Repara bem
que,
Nossas casas
são vizinhas,
fizemos
do abraço
 muro
como um fio invisível
que sustenta
o núcleo:
[RECOMEÇO]

Dos pés de graviolas
vinham notícias 
do novo ar
O passado
nos pés
enquanto
a casa estreita 
não cabia em tantos sonhos
Ir lá fora,
cuidar da rosa,
sentir a paz...

Conjurando amor
em gerações
de esperança:
Primeiro,
nascer
Pra depois, 
de braços dados,
no útero da vida
gerarmos juntas
perdão,riso frouxo
[Re]-Nascer.


*Dueto com Edina Regina



quarta-feira, 20 de abril de 2016

Quem sabe?

Ideias cheias de - quem sabe?
E, claro que sim,
meus trapos têm tons de imediato

Faço dejejum no navio
que voa nas águas
do chuveiro

Tenha paciência
Não faço sentido nem pra mim
Mas,
claro que sim

Faço das desgraças
de minha vida
motivo de festejo
é que a gente
é mesmo estranho
morre todo dia um bocado
e finge não entender
da nossa efemeridade
por preguiça,esquecimento
ou,
constrangimento

Zóia pra frente João!
Segura o teu e também o coração de Isac
Espia bem que,
Maria cata caranguejo em novo mar
Enquanto Izaías
vê a confusão e acha graça
Esse povo briga por tudo
Nem sabe que tirando o amor,
todo resto vira fumaça

E depois da morte,
Mais vida
Quem sabe?
Claro que sim.



sábado, 16 de abril de 2016

Sou mulher
o Estado me alimenta
em inanição
Meus peitos secam
protesto em ebulição
Nasci serva,
Curvas e quadris
Meu órgão curva
Babilônia em seus ardis
Alexandre o Grande adentra
Meu voto não penetra
Só sou pequena
Blues seco sem gozo
Lamento em impotência
o órgão não firma
Ondas cínicas
do caos
Músculos murchando como ondas
No vai e vem
da areia:
Água salgada
minhas lágrimas
e Céu-mar
Tenho uma poesia inteira
caindo de algodão
doce nuvem
encaracolada
rosa framboesa
cor de ilusão
se as rimas
empacarem
 na gira roda da fusão
eis que o verbo surge
nos ventos moinhos
da imaginação
verso
de compota
tarde de outono
no deus poente da imaginação
estrofe serena encasqueta
na palavra dura
da estação
caqui com amora
faz perfume
notas poentes
na canção
tenho um deus
ameno
no entreabrir da emoção

Meu rosto eclode
Viro em seta
Tenho Joana que me dê solução
É que eu busco a direção
mas a vista só enxerga
meia fração
Meu pescoço gira
e o mundo todo vai junto

(Foto Robert Doisneau)

Meia noite e vinte e seis
Iça o relógio das barragens
A coluna dobra
Dor em ascensão
Flúído místico
Mas,
a carcaça é humana
um pedaço do bolo pra deus
outro pro diabo
o pão é de Maria
rezo pra poesia se encurvar
Jesus entra na roda
Monte das Oliveiras
em Campo Grande
"É preciso amar ao seu próximo"
Como se o próximo for
passe sua vez na fila
Salpique compaixão
na flor do destempero
Cegos lendo a bíblia
Minha hóstia é o verbo de um ateu
Poesia de Narciso
nas enxadas de Macabeu.

Tô saindo de casa...
Molho minha infância porque
Espero tropeçar nas pernas
[... de um futuro mais menino
Aquele pedaço de manga
que os beiços chupam
e flutuam
no espatifar das águas
que o doce mela

braços queimados do sol
 e eu sou todo meia lua
chiclete de maçã
sacolé de uva
minha mãe
é Oxum
mas,
tenho as águas
do sertão

 e se,
chovo no molhado
 é pra fazer cordel
das traquinagens suburbanas
do amanhã
tô fazendo reza ...

benzedeira
mandou chamar
pula corda nas feridas
dá água que escorre de lá.

(Texto produzido para a página Ilusionistas do Verbo)



sábado, 2 de abril de 2016

Poé-mãe

Meu parto
é natural...
Sangro
em versos
Às vezes aborto amores
pra não gerar feridas
mais profundas
Mas,amamento
as crias da esperança
(líquido fresco)

Meu poema é maternal
porquê,toda inspiração
tem um "quê" de mãe

Uma estrofe
é um filho adolescente
Um verbo
é um nascimento
(que a gente nasce junto)

Ensino minha prole a andar
E fico orgulhosa ao ver
as palavras correrem soltas
Sou uma mãe boba,
deixo a poesia
em rédeas frouxas
Aceito o ditado:
Não criamos os filhos-poemas
pra nós...
A poesia é do mundo.
Peço por nós dois. Em tudo: Todo. Abrindo círculos,formando pocinhas rasas pra multiplicar a sede. Assanho a poesia e dilato minha reza no parquinho:

Sereno, espero
os peixes 
voarem para os montes
e as aves
nadarem de fronte

Sobrei
de mim mesmo
em autobiografia.
por dentro,
abri as portas

Minhas pernas
formavam
túneis 
de memória
(minhas veias seivando por todo bosque)


Virei outono
desde que nasci
minhas folhas caem
convictas
(Se amam no chão
em dança)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

É delírio, não sei se salto ou solto. Se pauta ou puta. Travessia ou ponto fixo. Londres ou Palestina. Dentro da cabeça, gira veloz e em toda parte sobrevive um tempo, registro no desfiladeiro de um mundo irônico. Foi quando envelheci em fingimento, quando chamei de sangue a vontade de me renovar. Quando tive sede e me distanciei do mar, quando simulei um espirro pro teu perfume tão bom e disse ter medo da gente como quem vive em véspera de guerra. Acho que foi quando habitei em um azulejo branco, mas tinha as mãos cerradas, quando só vi superfície e em um devaneio, botei fogo no meu corpo inteiro, mas não queimava.
Você vai me perder. Entre o hiato de um café e o vão das nossas casas. Escuta bem: Já começo a ter preguiça da gente, e o cansaço chega gigante nas pernas de um bonde. E eu já tenho quase trinta e não dá pra sufocar nessa calmaria. Preciso de mais... Choque, blues e arrepio na nuca. Tô correndo no mundo, tô pagando minhas contas e não tenho tempo pra chorar por quem tá na contramão. Por isso, veja bem se, pira comigo, escreve um poema colorido e passa pro lado de cá da vida duma vez.

sábado, 26 de março de 2016

Acho nuvem
a coisa mais poética 
que há

Amalucadas,
sob a ótica infantil
Formam ursos,
cavalos e ovelhas

Quando tristes,
pingam
água nos
beiços da terra

Sensuais,
escondem e revelam
Sol e Lua
em um jogo
quase
obsceno

Em marcha,
deixam-se levar
pela flor do vento

Humanas,
dançam
aéreas
nas 
suas 
formas
de amor





sexta-feira, 25 de março de 2016

Não tenho sono. Tenho ânsia e dúzias de poemas martelando na cabeça. Me vem um estado de verso,que eu não sei denominar. Eu vejo um rio caindo no copo de café,um poste tombando na música,uma borboleta voando na minha saia. Eu sinto cheiro de hortelã nas roupas de meu avô e ouço meu pai na gargalhada de Ana. Minha mãe é minha filha e meus irmãos parte de uma mesma ilha que visito com amor. E, ainda não tenho sono. Tenho um verbo que dança lá e cá. Tenho gratidão e uma nuvem no braço esquerdo que se eu soprar, vou junto dela. 
Enquanto o sono não vem, meu avô dorme, de boca aberta, feito criança. E, é tão bonito...Tão bonito que nunca tinha visto com tantos detalhes as cores saindo do ventilador. 
O sono ainda não chega, mas a fé é uma amiga que acaba de chegar de viagem. Trocou olhares e fez as pazes comigo. Sábia, avisou que estamos quites outra vez. 
Debruçamos na janela
Um gato amarelo e eu,
espiamos a lua tampada de nuvens
[com olhos de catarata

A noite está fresca
O muro do vizinho nos abisma
Muralha da China
[em nossos pensamentos

O felino e eu,
observamos com alívio
[o azul que roça a música

Em algum lugar,
nos campos de Março
Aquele bichano foi testemunha
(comungou comigo)

De uma poesia
Que chorei e 
assistimos voar
No doce imprevisível da vida
Voltou pra casa
Com a mão acenando estrelas
E o rosto coberto de histórias
Mais forte,
tua coragem
[renova minha fé
Em sonhos
[perdidos lá longe
Na única mão,
tens o mundo
[em órbita
Ofício de artesão:
Flores no punho

Esperança em projeção

terça-feira, 22 de março de 2016

(O homem velho 
Tinha nos gestos 
O grito abafado)
...
As mãos deslizavam

Nos dentes do mar
Os braços 
Que construíram 
Estações 
Guardam pela última vez 
Muralhas
(A noite tossia)

As fronteiras
De suas asas
Serão cortadas

Seu abraço estará 
Amarrado em um oceano
[que desconheço
Amputado seu membro ilha
Terá a cicatriz de 
Uma chibata
...

Seu punho é água
Mas os pés ainda
São balsa
Por isso, resiste.

domingo, 20 de março de 2016

Outra vez cinco

O amor
inundou a sala,
trouxe uma recém chegada
e a saudade de quem
 a dezesseis anos partiu

O tempo
trouxe chuva
ventou
em nossos galhos

Éramos cinco
O patriarca
foi soprado 
pra colorida nuvem

A nuvem molhou também,
pingou água 
e Ana

Outra vez somos cinco




Reinventamos
 riso frouxo e perdão
Flores azuis nas mãos
Braços dados em ventura
Mulheres em nuvens!

A poesia é nosso automóvel.


Veja bem minha velha,
A saudade voa
Pousa nos brancos fios e,
na flor da caneca
que cruza duas cidades

A saudade me encharca mas,
o relógio silencia
porque
espera teu regresso

Quisera em outra vida,
fazer da fé meu leme
te pedir outra vez em casamento
fazer teu prato favorito
sentar no portão
entardecer no outono
enquanto você faz crochê

Se eu pudesse,
Juntava o céu com a terra
pra regressar pra você
que é meu lar.



sexta-feira, 18 de março de 2016

No país de Ana


Ana inaugura uma poesia
que, nem mesmo eu conhecia,
nos colocou no país encantado dos novatos

Amor recém prendado,
gargalhadinha de música em flor
...
Ana nem sabe ainda, mas,
desconfio que depois dela,
quem nasce somos nós.




Abro a caixa da infância,
tenho cinco minutos de riso.
A pequena,
desperta do sonho de breve vida
(MI-ANDO saudosa)

Caçando passarinhos no abacateiro 
ou,
afiando as unhas no sofá,
mordiscando os pés distraídos
pra chamar atenção.
Candura em quatro patinhas
Jardim das curiosas percepções
Legitimada pela poesia,
Construí  um céu-felino

Pra morar seu ronronar.

  E depois de tanto tempo, eu tenho medo da morte outra vez. Não estou pronta pra sua partida, suas velhas mãos ainda estão presas nas minhas. Seus passos lentos e cuidadosos para não tropeçar nas pernas da saudade ainda pisam neste chão. Talvez, eu deva orar baixinho, pedir que tua ausência saiba ser presença em minha poesia. Eu escrevo, escrevo pra arrancar o nó que sobe amargo na garganta e trança no choro que quase vem.  Como se meus versos pudessem te trazer a cura, como se cada estrofe fosse um amuleto. Eu sei...Eu sei... Está chegando a hora. Partir... A partir das partes de nós  que ficamos por aqui.

domingo, 13 de março de 2016


Esta casa, velha como meu corpo,
abriga minha loucura.
Obriga-me a escrever sobre seus cômodos e meus incômodos,
sobre minhas portas e suas paredes.
Quase sempre, esta casa e eu somos um só,
fundidos em uma rua,
localizados no centro do caos.
Esta casa, me gerou no tempo
envergamos nossas carcaças,
endurecemos no fio dos anos as carapaças.
Amanhecemos por vezes amarguradas,cobertas pela fumaça dos carros e solidão.
Esta casa senta-se à mesa comigo
(compartilha seus medos)
Precisamos nós duas de uma pintura e um novo abrigo anti-bombas.
Somos velhas amigas,
escondemos nossos temores em passagens secretas
que nenhum visitante jamais ousaria entrar.

Câncer


Em julho, cordão de vida
Cometas delicados, poema fecundado na nuvem
Dou teu nome pra uma árvore,
Procuro teu abraço-azul neste espaço
Me faço de ar e vento
Por um momento te respiro
Por um movimento te alcanço
Penso que, de longe, sou lenço, vou manso
De perto, nossas partículas propagam (Miro e vejo em tuas costas de algas)
Erguendo a onda mais clara que vi
Mergulha no pedaço de poema comigo
Vou humana, vestida de palavra
Aos poucos te dispo
A cada verso que tiro-te
Vejo-te a humanidade neste jardim d'água
Esta onda d'algas, quebra-se nas areias da ampulheta
Escolhemos o terraço do tempo
Ungimos o mundo com nossas possibilidades

(Dueto de Natacia Araujo e Paulo Alonso para a página Ilusionistas do Verbo)

Resposta


Colado ao vento, copulo com o verbo
Pois, o poema quer viver
Mire bem que, em teu cheiro (folha única)
Tenho pátio mágico com todos os encantos do mundo
A letra mais intensa
Marca minha pele como um sonho frio
Sei que é deste lado que o poema desenha seu rosto
Sei que é este lado do seu rosto
Sugerindo poemas
Os dedos ficam aninhados no mergulho das pupilas
Este é um alívio transgressor, evocando presença solta
Acontecimento de minha própria humanidade.
Prevejo uma embriaguez saltando da língua
E a fúria criativa entranhada no corpo
Prevejo a sua imagem me olhando na superfície da água
Ouço antecipadamente
A sua voz me responder quando grito no abismo
Tua poesia dá razão ao meu barato
As mãos, em transe, digitam coreografadas teu colorido
Nasce multidão no buraco de nossas palavras que,
invoco e danço
(Não se esqueça: no útero do céu, tudo é agora)

(Dueto de Almi Junior e Natacia Araújo para a página Ilusionistas do Verbo)

E o relógio ainda pulsa


Você, desordem programada em meio ao caos
Sodoma e Gomorra virtual
Mais e mais de você se expandindo
O poema parte se feito fruta de temporada
Parte do efeito das asas desatadas
Dos nós complicados de nós mesmos
Mesmo que nesse caos do voar das mariposas
Atinja meu tempo, levarei-me a esmo
Escrevo em minha nuca todas as linhas
Tuas cordas em meu pescoço
Deixo pra trás todos os poemas que formamos na sala
Embarcamos no devaneio florido
Bons presságios, nas asas contorcionistas que a inspiração escreve
Bons agouros
Duma ação que move seus mundos e fundos
A fornalha da locomotiva pelos meus dedos
A forja que produz essa corrente que te sustenta
Elo a elo, encadeados, encarnecidos
Metal gelado (língua no disparo)
Marco zero nas duas luas da tarde
Estou dispersa
Nem sei denominar esse novo tempo
Último dia, você arranca o relógio do pulso
E o relógio ainda pulsa


Dueto de Paulo Alonso e Natacia Araújo para a página ilusionistas do Verbo

Dueto

Com o fio da poesia transparente a nos unir
Rascunho dentro de nuvens
Do Atlântico cruzamos com o inesperado
Inflando a arte de azul
Na ponta do verso aponta a flecha
O olho é arco em alto-mar
O alvo a imensidão aberta
O sol se pondo na íris a tardar
Enquanto a noite engole o azul
Vermelho o amor dança na areia
Na fricção da pele
Estrofes marítimas
Não há rima
Mas há ritmo na liberdade das línguas
Manda chamar alguém que tenha as chaves ta tua caixa torácica
Alimentando as batidas dos próximos poemas que vir
Somando nossos pedacinhos úmidos nas estrofes
Águardendo nos poros subaquáticos de vida.
(Dueto com Rai Blue e Natacia Araújo para a página Ilusionistas do Verbo)

Prosa poética


Procurou caneta e papel. Vinha vindo um poema no meio da sala.
Às 14:30,soltou os cabelos. Ela tinha seu nome ancorado na coragem. Girou as saias: rodo[vias] para encanto.
Veja bem...É que o caos não tem a mesma força do aflorar da poesia, e o medo só chega se a gente não aprende a recomeçar. 
Recomeço.

(Texto feito para a página Ilusionistas do Verbo
Foto: Robert Doisneau)

Carnavalizar


Saio... No meio da multidão,
Os meus versos sabem ser livres
E a vontade grita
Estou no bloco do desejo
Meu santo é forte e te devora
Tenho serpentinas e batuque sortido
Minha nação é vontade
Minha bandeira é liberdade
Estou acesa e solta 
Plena...
Carnavalizando o sumo da vida



(Poesia feita para a página Ilusionistas do Verbo)

Carta- Poema de fotografia para “João”



Quando vem o dia, rompo junto...
Como uma fonte de água,
dando socos no muro da poesia que,
escrevo e minha nuvem dança:
- Do lado de lá: vida. Aquela parte que, por um momento me neguei a ser. Por isso, joguei fora aquelas velhas cortinas azuis. Hoje e amanhã, a partir de ontem, o presente é preenchido pelo pássaro desenhado no meu vestido - quanto mais eu giro, mais ele voa colorido.

(Imagem: Obra “Morning Sun” (1952) de Edward Hopper)
(Texto feito para a página ilusionistas do Verbo)

NADO SINCRONIZADO


Canoa minguante,
remando nas marés 
à própria força

Atordoado sopro...
Fôlego náufrago em minha corrente,
e na água lodosa que supõe 
a madeira retorcida:

Nadamos juntos 
em espasmos descontentes.

(Texto para a página Ilusionistas do Verbo)
Foto: Débora Andrade)

Mar-Lunar



Uma coisa fragmentada
[Nos conduzia
Pulsava em nossos cantos
[ implodindo presságios lunares
A língua em braile lia
[ nossos abrigos escondidos
Caímos juntos,
Aos poucos,
Com os gemidos dos cometas.


(Imagem: Max Sauco
Texto para a Página Ilusionistas do Verbo)

domingo, 6 de março de 2016

Corrida dos recém solteiros

Foi dada a largada: A boa e velha corrida de quem dará a volta por cima ao final da relação foi inaugurada. As fotos em noites felizes, bebida em punho,largo sorriso, filtro do Instagram preparado e, possíveis novos parceiros para fazer afronta. Roupa nova,mega produção. Tudo conforme o rito de passagem manda. O batismo dos novos solteiros começa e você se sentirá na obrigação de bater ponto em todos os eventos da cidade. Todos os artifícios para não pensar e não lembrar, vale de peteleco na orelha nas fotos felizes de casal até jogar as roupas do outro fora.Mas, não esqueça que,não importa quem fez as malas e partiu primeiro. Sua mente vai ser pra sempre a casa que você vai morar. Não há para onde fugir,por isso,esqueça de uma vez o medo do novo,e saiba que,enfrentar a carreira solo por muito ou pouco tempo é fundamental. Nada é nosso, o amor é patrimônio público. Tom Jobim errou feio: É sim, possível ser feliz sozinho.

sábado, 5 de março de 2016

Microconto cotidiano

Não funcionou. Como quando a gente sai do cinema com a sensação de ter assistido a um filme sem sal. E eu já não sei a muito tempo viver de romance meia boca. É que eu preciso alimentar minha poesia com amores que queimam, saudade que sufoca e faz a gente querer gritar. Amor tem que tocar blues no estômago, arrepiar a nuca e fazer o tesão brotar só de ouvir a voz do outro em um telefonema às duas da manhã. Amor tem que ser danado, meio carinho afobado, meio verbo ritmado.
https://www.youtube.com/watch?v=TkD97-dBCo0

Crianças-fósforo

Ancoro em uma praça
cercada por
mulheres-morte
e crianças-fósforo

Os bicos das mães
jorram café
Estamos elétricos,
o moço no final da rua
toca Bessie Smith

Minhas células ciliadas
orientam-se na multidão
abafada pelo frio.
Deglutimos juntos
do pequeno caos que se forma

A música impulsiona todas
as colheres dos bares
que nos atiram
amendoim fresco
Acertando em cheio
a cadeira de balanço
do velho da esquina
que fuma seu cachimbo

As mulheres abrem seus
guarda-chuvas
enegrecidos pelo tempo
Enquanto as crianças se acendem 
no centro
de minha memória

Estamos bêbados,
meu Estado é


Ode a Bethânia


Bethânia invoca meu som
(tom de água)
Mulher-trindade
Aquático barulho
Quase brando,
 espumando acordes indizíveis,
com seu barco voando 
no meio das palavras gigantes

Arrasta fantasmas
que, daquela água
bebiam e,
arrotavam nossos medos
como se soubessem
o gosto de dentro
( e eu não sei de mais nada)

Sei que,
em sua música
há de florescer
mais tempo
além do próprio tempo

(Bethânia líquida em meu devaneio)
https://www.youtube.com/watch?v=Tl89uZMI2fk



No meio da calmaria

  Saiu, assim mesmo. Do jeito que entrou. Sem brigas ou bate boca. no meio da calmaria, no ápice do nada que acontecia. Esfriou o tempo, esfriou o café. Do outro lado do mar,tinha uma onda chegando. Era o marasmo que precedia a poesia. Às vezes, é preciso silenciar pra ouvir o caos.
https://www.youtube.com/watch?v=MWoJGe0xANk

Fuga

Eu fugia do verão
Uma nuvem me perseguia,
sem sombra,
o amor derretia

Sol escaldante
Inferno suburbano de Dante
às seis da manhã
o abafamento engolia
a casa e,
eu,junto da casa suava
Cari-oca
minha inspiração precisa de tempo frio.
https://www.youtube.com/watch?v=XGEiY3tsxrY

Bairro dos novatos

  Vou ficar quietinha, pode deixar. Feito filhote de passarinho que esqueceu o que é cantar. A vida é curva e essa virada carece de silêncio- O momento exato em que a mente flutua no divino e pede a Deus novo rumo. 
Nessa hora de agora é preciso corda no ponteiro que marca os minutos e recomeço meu. Tem um ônibus que me leva pro bairro dos novatos do recém recomeço. 
  Acordo cedo,faço sinal, entro, sento-me ao lado de uma velhinha que diz:
_ Ora, filha, se eu, nessa idade, recomecei essa semana já três vezes,você vai ficar bem também.
E, sorrindo me apontou pra janela:
_ Viu? O fluxo é contínuo... O dia, os rios, os carros e pedestres...
Evoluir...
Evoluir...

Microconto cotidiano

Deitou no sofá pra me pedir cafuné. Mas, eu estava oca, desprovida de carinhos. Zapeava os canais como quem mudava o cenário de uma vida. era preciso envergar a terça até virar sexta, mas não tem jeito,eu tinha a secura careta de um domingo. Desliguei a tv. (E você de mim)
https://www.youtube.com/watch?v=Y-TVyEW2iC0